KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Lembranças de Paraopeba 2Altino Moreira de AvelarCiberfil Literatura DigitalMarcelo C. BarbãoÀ˜Š Versão para HiEbook por Marcelo C. Barbão Março de 2002 Permitida a distribuição Visite nosso site: www.ciberfil.hpg.ig.com.br ou mande-nos um e-mail: ciberfil@yahoo.com Índice ET COM BAFO DE ONÇA O VEXAME DO CAIPIRA APAIXONADO ZÉ GATO, O MARATONISTA COMPULSÓRIO OS ARAPONGAS DO 7º ANDAR A LISTA DOS ZÉS DELÍRIOS EM DOSE DUPLA A NOITE AO MEIO-DIA MILTÃO VINTE E CINCO NA ROTA DA ERVA E DO PÓ DO CAPETA UM DEFUNTO MUITO VIVO OS FANTASMAS ASSOMBRADOS XANDOCA DENGOSO OPERAÇÕES MAL SUCEDIDAS PELANCA, O CRAQUE DA CAMISA Nº 2 COLETE PRETO SAFADEZA À SOMBRA DO JACARÉ PILANTRAGENS JUNTO AO REGO DE SÁ JACINTA LOBOS REAIS E SACOS AMBÍGUOS A ONÇA ERUDITA E O VEADOS ENRABADOS STRIP-TEASE NO FUNIL ET COM BAFO DE ONÇA Zé Silveira, morador do Cedro e que devido a proibição do comércio de bebidas pela CCC (*) , vinha quase que diariamente tomar umas pingas nos botecos de Paraopeba. Seu ponto preferido era o bar do Galdino do Eliezer que ficava situado na região onde é hoje o Parque de Exposições, junto à estrada de carros de bois que unia os dois lugares. Era um pinguço do tipo inofensivo. Não brigava, não babava, não falava palavrões e não pedia nada a ninguém. Chegava no bar pedia uma dose, sentava-se em um caixote e lá ficava horas a fio, renovando periodicamente o estoque. O Zé Silveira gostava era de cantar. Depois da terceira dose, tirava do bolso uma gaitinha, executava uma introdução sem nexo e em tom moderado intercalava sempre a mesma canção: É o bicho caxinguelê, Ele trepa pro pau arriba, Ele desce pro pau abaixo, Ele corta cipó co’a mão, Ele pula do pau no chão... Tatu subiu no pau, Foi cumê uma mumbuca, Lagartixa chegou dibaixo, Calango cê cai daí e machuca... Sô Gardino é home bão, Dá nós cachaça dado, Ele veio lá de Sampaulo, Foi isbarrá lá no Rasgão... Era como um agradecimento ao tratamento cordial que sempre lhe dispensara o proprietário do bar que o tratava com alguma atenção, tanto pela sua idade um pouco avançada como pelo seu comportamento cordato e pacífico. Entre três e quatro horas da tarde o Zé Silveira levantava-se do caixote, pagava a despesa e, cambaleante, tomava o caminho de casa, revezando os acordes da inseparável gaitinha com a poesia de sua canção preferida. Uma tarde houve grande tempestade, o Córrego do Cedro transbordou e a ponte, passagem obrigatória para pedestres e veículos, foi destruída. Só ficaram as duas vigas de madeira que com o rápido baixar das águas serviam de pingüela para a travessia dos transeuntes. Zé Silveira tinha que passar e apesar de aconselhado a desistir da idéia, firmou o corpo, respirou fundo e deu os primeiros passos em direção ao lado contrário. No meio do trajeto, a vista escureceu, as pernas bambearam e na ânsia do reequilíbrio, abriu os braços e a gaita que trazia na mão direita, escapuliu e caiu no leito do córrego, àquela altura com o volume de água quase normal. Ele não queria perder seu instrumento. E não teve dúvidas: literalmente desabou da viga, desceu como um bólido os dois metros de altura e afundou lá em baixo nas águas barrentas. Como a profundidade era pouca e a correnteza praticamente nenhuma, emergiu com água pelo tórax, reequilibrou-se, deu dois passos em direção à margem e conseguiu agarrar a gaitinha que boiava à sua frente, presa num ramo de bambu. Alívio geral e problema à vista: como tirar o bêbado do leito do córrego? Enquanto os circunstantes discutiam a melhor forma, houve uma descarga da tinturaria da fábrica de tecidos, a poucos metros a montante, transformando a cor das águas em um verde escuro, com forte odor de anilina, subindo o seu nível e cobrindo o Zé Silveira que emergiu segundos após com a cabeça e face devidamente coloridas pela ação da tinta. Zé Poeta, o mais expedito dos curiosos, correu ao armazém do Cristiano, pegou uma corda de cânhamo, amarrou uma ponta no eixo no automóvel do Zito, estacionado à margem, desceu por ela até o leito do córrego e amarrou o Zé Silveira pelo tronco. Lá de baixo, deu a ordem: - Ô Zito, liga o carro, mete uma primeira e saia bem devagarinho! Estava salvo o Zé Silveira! Sofrera somente alguns arranhões, perdera o chapéu e o pé direito da botina. Devidamente desamarrado, levou a gaitinha enxarcada aos lábios, soprou-a e ela não funcionou. - Tem duda não. Amanhã ela tá seca e vorta a sê cumo era iantes. O que num pudia é eu perdê ela. Quase qui morro, mais ela tá aqui, oh! E, triunfalmente, todo colorido de verde como um ET do futuro, começou a subir a rua em direção à sua casa, entoando a música preferida: Tatu subiu no pau, Foi cumê uma mumbuca... Grande Zé Silveira! Já não existem mais pinguços da sua classe e categoria! ________________________ (*) CCC - Companhia Cedro e Cachoeira, tecelagem.> O VEXAME DO CAIPIRA APAIXONADO - Cê tá sumido, cumpade Tiburço. Pru onde tem andado, home? - Tive meio perrengado, cumpade Jacinto. Mais agora tô mais mió, pronto pra otra. O andaço que deu aqui na Mutuca me pegô de cheio. O figo num quiria funcioná e o trem teve preto, cumpade... Mais o qui piorô tudo foi um inchaço no jueio dispois da queda qui levei lá na Taquara...Foi três dias de cama e o qui me levantô foi banhá o lugá cum infusão de foia de carqueja e cataplasma de raiz de pariparoba cum mé de abeia arapuá, qui a Josefa preparô pra mim. - Ah, é. Eu sube qui isturdia ocê teve lá na Taquara. Que qui ocê foi fazê lá? - Oia, cumpade Jacinto, eu num divia contá isso pra ninguém, mas ocê é de toda cunfiança e peço pro assunto morrê aqui mesmo... - Eu num vô cumprometê ocê, cumpade Tiburço. Cê me cunhece desde que nois era rapaz e nunca te traí in nada. Além de tudo, cumo ocê sabe, tenho meus segredinhos tamém... - Pois é, cumpade. Eu fui lá na Taquara só pra vê a Matirde, aquela menina bonitinha e dengosa que nois conheceu há muito tempo lá na iscola e de quem eu nunca mais se me isquici... - Mas a Matirde agora é muié casada e cum marido muito brabo, cumpade Tiburço. E ocê sabe que o pessoá da Taquara gosta mesmo é de pinicá e riscá com faca os atrivido e, se tivé otro, já fica marrado no pé de piqui pra sê ripitido o sirviço no dia siguinte... - É isso mesmo. Mais eu sube que a Matirde tinha mandado o marido pastá e num tinha arrumado otro não. Tamém eu só quiria vê ela, sem otras intenção, pois sei tamém qui a muié é danada de séria... - E cumé qui foi, viu ela? - Na sexta-feira da semana retrasada, mandei a Josefa iscová e passá minha rôpa de casamento, engraxei a butina, disamarrotei o chapéu de lebre e no dia siguinte fui isperá a jardinera pra Taquara, lá na curva da cacimba. Iantes eu tinha pegado um frango e panhado uma capanga cheia de quiabo pra levá pra Matirde. Chegá de mão banano num dá né... - Ocê chegô, viu a muié, intregô o frango e os quiabo e vortô, né cumpade? - Qui nada, sô. Num foi fáci assim não. Chegano na Taquara, fui informado que a Matirde tinha uma venda de pano no povoado. Fui pra lá, passei na carçada do otro lado da rua umas treis veis, vi a Matirde atendeno os fregueis lá dentro da loja, mas as minha perna tava bamba, o suô frio iscorreno, eu tremeno da cabeça aos pé e quedê corage de intrá... Oia, cumpade, num é qui a diaba da muié tava mais bunita do que quando nóis cunheceu ela nos tempo de iscola? Arta, elegante, jeitos manero, cabelo curtinho, andar facero. Mar cumparano, ela tem inté umas parecença com aquela moça qui teve um disastre de tomove dentro de um túnel, lá na Oropa... Uma tar de princesa Diana de quem já te mostrei o retrato no jorná... Farta só tê o cabelo um pôco mais cumprido e craro, caino pru riba da testa. Pro meu gosto e sem ixagero ninhum, a Matirde é inté mais bunita qui a otra moça... - Ocê ainda gosta muito da Matirde, né cumpade Tiburço? Pra vê isso tudo numa oiada só é pruquê seu amô supitô cumo uma brabeza de tempestade... - Bota gostá nisso, cumpade Jacinto! Ela não é cumo a Josefa, qui eu respeito, mais num dá nem pra compará ... - Intão, que qui cunteceu dispois? Disimbucha logo, cumpade, qui eu tô cum pressa. - Jeitei o chapéu na cabeça, rispirei fundo e no que arrisurvi intrá, meio zambo das perna e com as vista iscura, eu trupiquei na solera da porta, pirdi o prumo e isburrachei no chão, juntinho dos pés da Matirde. Os quiabo isparramaro pro tudo qui era canto, a imbira que marrava os pé do frango rebentô e ele deu aquela vuada, sentando lá in riba de uma bancada de pano, ispantado e cacarejano feito um doido... No sulavanco do tombo, eu bati com a perna no armário onde tava pindurada umas roupa pronta, o vidro dele quebrô e caiu no meu jueio, dando um taio de mais de seis dedo... Foi uma confusão danada, com a Matirde e os fregueis quereno me levantá e intancá o sangue qui saía pareceno inté um isguicho... Foi aí que a dona da venda me reconheceu e falô dicidida e muito braba: - Após tanto tempo sem notícias, o senhor me aparece aqui, provocando essa confusão toda! Catarino - ordenô pro impregado - pegue aquele frango, cate os quiabos que o desastrado Tibúrcio esparramou na loja e ponha tudo numa sacola. Mande medicá-lo lá no hospital, acompanhe-o à rodoviária e embarque-o de regresso à Taquara em companhia de seus grotescos presentes. - Me discurpe, mais eu vim trazê esse frango e uns quiabinho pra sinhora cumê com angu no armoço de dumingo... Cunteceu isso tudo pruquê eu fiquei tão aturduado com a beleza da sinhora, qui pirdi o jeito inté de caminhá... Me deu umas parpitação esquisita, as perna bambiô, as vista iscureceu e eu só dei de si quando tava isparramado no chão, com o jueio todo regaçado, quemano feito fogo... - Qui vexame, hein cumpade Tiburço? - É, cumpade Jacinto. Eu só quiria vê a Matirde e dei muita contrariedade pra ela e vergonha pra mim. Mais, apesar de tudo, eu vi e apriciei toda a sua furmusura... Sinti inté o chero de hortelã que saía de sua boca quando ela viu a sanguera e abaxô pra me socorrê e amarrá umas tira de pano no meu jueio... E como ela de pirtinho é bunita, sô... Tinha um perfume de flô de laranjera misturado cum arfazema e manjericão, que meu nariz nunca tinha cherado iantes e eu num vô isquecê nunca mais... A pele da cara dela era viçosa e rosada qui nem uma romã bem madurinha... Os cabelo cortado curtinho tinha um chero agradave de jasmim e tava iguarzinho a cor das asa de tiziu, de tão pritinho que era. Tudo nela era bunito, mais eu só num gostei de uma coisa ... - Ocê num gostô de quê, cumpade Tiburço? - Da carça cumprida qui ela vistia. Era desse ticido qui tem o nome de “jeans” e num sei pruquê a gente tem qui lê “dins”. Ocê já pensou a pele macia e dilicada da Matirde roçano naquela lixa? Pode inté saí sangue... Tenho uma girisa danada por esses pano. O danado parece inté côro cru ou feito em tiar de pau, de tão grossero qui é. E o que eu num intendo é qui quanto mais disbotado, sujo e às veis inté rasgado, ele é mais chique... Parece inté invenção de miricano... - Nisso ocê tem razão, cumpade Tiburço. - Si um dia eu pudê falá tra veis cum a Matirde, cumpade Jacinto, a primera coisa qui vô pedi é pra ela usá saia ou, se num gostá, carça de viludo, seda ou otro pano macio quarqué. O corpo dela num pode ser martradado assim não... Ela vai sê muito mais facera se sigui os meus conseio... - Isso mesmo, cumpade. De pano ocê inté qui intende. Mais de muié, é um fracasso... ZÉ GATO, O MARATONISTA COMPULSÓRIO O Joaquim, tão capaz quanto o pai, o grande Agnaldo Edmundo, um dos pontos de referência da inteligência de Paraopeba em todos os tempos, contou-me que o Bertolino, agricultor lá das bandas do Tabuleiro Pequeno, chamou o Zé Praxedes e pediu-lhe: - Oia, Izé, faz o favô de falá pro Zé Gato que tô muito pirriado cum as pirsiguição qui ele anda fazeno cum a Lurdinha minha fia. Ele tá é impaiano a vida dela e eu num tô gostano disso não. E o Bertolino realmente não admitia o namoro da Lurdinha com o Zé Gato. Namoro, diga-se de passagem, que se resumia em alguns flertes nas noites de domingo, no footing da Praça da Matriz. Nunca os dois tinham sequer trocado uma palavra. Mas só de pensar em um envolvimento entre os dois, o Bertolino espumava de raiva. - Ainda pego aquele marvado! Pra isso tô carregano agora essa faca que é pra mostrá a distança que separa ele da Lurdinha. Num sô de violença não, mais num güento mais as pessoa miá imitano gato quando passa perto de mim - concluía o Bertolino. Mas o Zé Gato até que era boa pessoa. Simples, humilde, trabalhava no sítio do Dininho, lá pelas bandas da Vargem do Lobo. Ali ficava a semana inteira, cuidando dos animais e da horta e só vinha a Paraopeba nos finais de semana. Aos domingos substituía o seu colega Geraldo Rezende Batista (de quem o Maurílio do Nenê juntara as três primeiras sílabas do nome e transformara no Gereba), no transporte, atreladas sobre um cavalo, de duas latas com 30 litros de leite que seriam entregues em várias casas da cidade. Após o cumprimento do itinerário, o Zé Gato chegava em casa, amarrava o cavalo em baixo da mangueira, tomava o banho semanal, limpava as unhas com um palito de fósforo, raspava a barba rala, aparava o bigode, vestia a calça branca e camisa xadrez e aí começava o drama: calçar os sapatos. Não se sabia quem tinha mais aversão, se os sapatos pelos pés do Zé Gato ou se o contrário. O certo é que era uma luta o acoplamento! - Ô mãe a sinhora pôs o mio de molho dentro do sapato pra ele alargá mais o bico e passô sebo nele pra mode amaciá mais? Num tô cunsiguino carçá ele de jeito ninhum. Traz uma cuié pra ajudá o carcanhá incaxá pois eu já botei tarco, fiz uma força danada e nada dele iscurregá lá pra dentro! Depois da luta, e até que os dedos sobrepostos ficassem anestesiados pela compressão do calçado, ía o Zé Gato manquitolando e suando em bicas em direção à Matriz para a missa das nove. Depois do almoço, recostava-se em uma cama, tirava uma soneca e lá pelas três horas, invariavelmente iria cumprir o restante de seu programa: dirigir-se ao campo do Paraopeba, assistir ao treino do time, passar no bar do Nonô onde sapearia algumas partidas de sinuca e descer depois para a Praça da Matriz onde após a reza das sete horas poderia ver, mesmo que de longe, a sua amada Lurdinha. Havendo recebido o recado por intermédio do Praxedes, o Zé Gato redobrara os cuidados e passara a se postar sempre numa posição estratégica a fim de que não fosse surpreendido no caso de um ataque do Bertolino. Naquela tarde, porém, ele se distraíra. Absorvido com as jogadas do Otávio, do Neves, do Quiléu e demais jogadores no treino, estava com a retaguarda desprotegida, sentado sobre um pedaço de jornal no barranco que circundava uma das laterais do campo. E foi por aí que veio o Bertolino, regressando da casa da Tiola onde fora entregar uma encomenda de quiabos, com o balaio em uma das mãos e com a faca na outra. - É ocê mesmo qui ando percurano, cabra safado. Já mandei te dizê pra num oiá mais pra minha fia e ocê tá temano. Agora, vai me pagá, vagabundo! O Zé Gato virou-se e quando viu a lâmina da faca brilhando, deu um salto, desvencilhou-se do primeiro golpe mas não conseguiu escapar do segundo, levando uma furada no traseiro. Reuniu todas as energias para se safar da situação, mas o maldito do sapato não lhe permitia desenvolver a carreira necessária para se afastar do perigo. O Bertolino, embora de idade mais avançada mas ainda com bom preparo físico, se aproximava, xingando e babando de raiva, com a faca na mão. Atravessaram toda a extensão do campo e quando parecia que tudo estava perdido para o Zé Gato, o Bertolino tropeçou em um montinho de grama, desequilibrou-se e estatelou-se na poeira. Enquanto o agressor se levantava e tentava tomar pé da situação, o Zé Gato parou, equilibrou-se em uma das pernas, arrancou um sapato, atirou-o longe e imediatamente fez o mesmo com o segundo. Quando a poeira baixou, o Zé Gato, completamente livre, já havia saído do campo e daí só foi visto até a primeira esquina. Nem em casa passou para se despedir da mãe e, de um só fôlego e olhando pra trás de vez quando, como os atuais maratonistas, só foi parar lá no sítio onde trabalhava, a cerca de 12 quilômetros da cidade. Mandou o Gereba buscar o cavalo e só voltou a Paraopeba dois meses depois, não ultrapassando a casa de sua mãe, na periferia da cidade... Poucos anos depois, o Bertolino faleceu e então o Zé Gato pode se aproximar da Lurdinha e, somente no dia do casamento, voltou a se calçar novamente. Também não ficaria bem o noivo usar alpercata de solado de pneu naácerimônia religiosa ao lado de convidados e testemunhas adequadamente trajadas para o ato... *** Recordações de fatos acontecidos em uma cidade bucólica e romântica e que atualmente não seriam mais notados, tal a banalização da violência que assola nossos tempos, espelho do procedimento de uma sociedade insensível, egoísta e insensata e da qual todos nós, inconscientemente ou não, temos nossa parcela de culpa. OS ARAPONGAS DO 7º ANDAR No final da década de 60, com o recrudescimento dos atos de sabotagem, seqüestros de personalidades, desvios de aviões e outros atos de reação ao arrocho da ditadura que se instalara em 64 neste país, a Centro-Oeste, empresa de transporte ferroviário com sede em Belo Horizonte foi compelida a organizar o seu próprio Setor de Segurança. Além das atribuições de checar e catalogar as tendências político-ideológicas de cerca de 11.000 servidores, passando-as ao conhecimento das autoridades repressivas, subordinada a esse Setor foi criada a Polícia Ferroviária, cuja principal atribuição era a guarda e vigilância armada dos bens patrimoniais da Estrada. Para dirigir essa Polícia foi convocado um escriturário de capacidade profissional e intelectual discutíveis e que houvera se infiltrado no círculo diretivo da Estrada graças à sua subserviência ou, se quiserem, descarada bajulação. A credencial para o cargo foi embasada na prática da leitura obsessiva que fazia da X-9, revista policialesca da época, e algumas incursões pelo Gibi, onde o Mandrake, o Fantasma e até o Capitão América eram seus heróis preferidos. Também na televisão não perdia episódios dos seriados Hawaí 5.0 e Bareta. Possuía realmente um currículo fantástico e que o qualificavam plenamente para o desempenho das funções! Intitulou-se comandante Alecrim e, para seu fiel escudeiro, conseguiu a nomeação do sargento Mundico, seu colega de seção, de conhecimentos policiais e de filosofia de vida. A Polícia foi instalada em amplo salão no 7º andar do prédio da administração, local sujo, abafado, mal iluminado e que nem servido era pelos elevadores do edifício, sendo utilizado apenas como depósito de sucata dos móveis eutensílios da empresa. Um telefone interno, um quadro negro, duas mesas e cerca de 50 cadeiras reformadas formavam o gabinete do comandante Alecrim e do sargento Mundico. Proibida que estava a contratação de pessoal, o problema de lotação do quadro de guardas foi resolvido com a convocação de cerca de setenta funcionários da antiga Estrada de Ferro Bahia-Minas, recém desativada, e cujo patrimônio e pessoal foram absorvidos pela Centro-Oeste. O comando da Polícia Ferroviária tinha conhecimento que a tarefa de treinamento desse pessoal seria muito problemática. Tratava-se de pessoas muito simples, acostumadas a um ambiente social e profissional totalmente diferente, grande parte analfabeta e com problemas sérios de saúde. Sofriam discriminação de toda espécie, inclusive a designação genérica e pejorativa de “baianos”. Mas não havia outro recurso e o quadro policial foi formado exclusivamente por eles, tendo cada um recebido o respectivo uniforme composto de um par de botinas, dois conjuntos de blusa e calça cinzas, um crachá e um quépi azul com as iniciais P. F. em destaque. Na reunião para entrega do armamento composto de um cinturão, um cassetete e um revólver calibre 32, o comandante Alecrim, do alto de sua arrogância e prepotência, se dirigiu à tropa em pose autoritária e professoral: - Vocês estão recebendo esse equipamento e quero que o honrem e façam bom uso dele em nome da pátria e da revolução. Lembrem-se que o comunismo ateu e selvagem e a subversão devem ser os inimigos que todos nós devemos combater sem tréguas. Ainda hoje fui comunicado que está havendo roubo de fios de telegráfos entre as estações de Divinópolis e Santo Antônio dos Campos. Há suspeitas inclusive de que uma célula subversiva está em formação na área, com treinamento de guerrilheiros e sabotadores. Em missão altamente secreta, vamos partir à tarde para a região a fim de prendermos os ladrões e estourarmos o núcleo contra-revolucionário. Dirigindo-se ao quadro negro, traçou a estratégia para o ataque: - Esses traços horizontais paralelos identificam a linha férrea e uma estrada de terra que corta a região. Entre os dois há uma mata fechada e é esse o ponto onde se reúnem os ladrões e subversivos. Nós vamos atacar nesse ponto em duas frentes, num movimento de pinças e formar um bolsão para cercar e prender os inimigos. No local serão dadas novas instruções para a operação. E vinte agentes em quatro veículos Rural Willys partiram à tarde com intervalo de quinze minutos entre cada um para evitar suspeitas. Depois do jantar em Divinópolis houve o deslocamento da tropa até o local da operação onde o comandante Alecrim deu as últimas instruções: - A cem metros de distância, dez guardas de cada lado formarão um semicírculo com o espaço de cinco metros entre cada elemento. As extremidades serão comandadas pelos agentes 34 e 27 de um lado e 18 e 44 do outro. Tomarão posição e, ao sinal do apito do sargento Mundico, irão se deslocando em sentido contrário até que o círculo seja fechado, cercando e dominando o inimigo em seu interior. Quero a maior atenção e silêncio na operação pois disso dependerá o seu êxito. Boa sorte! E a tropa tomou posição segundo as determinações superiores. Pela madrugada ouviu-se o apito do sargento e começou o deslocamento silencioso e tenso dos agentes. Quando as colunas estavam a menos de 10 metros de distância e sem que se pudesse ainda divisar nada na escuridão da mata fechada, um guarda pisou no ninho de uma nhambu que chocava sob uma moita. A ave se assustou e após o pio característico, voou estabanada em direção à pequena clareira. Oguarda, não conseguindo manter a calma e achando que estava sendo atacado, puxou o gatilho e deu o primeiro tiro. Aresposta do outro lado foi imediata, formando-se a maior batalha e confusão dentro da mata entre os membros das duas colunas. Foi tiro para todo lado, até que a munição se esgotasse. Dia amanhecendo, operação encerrada, saída dos agentes do campo de operação, tropa enfileirada e feita a chamada dos agentes: faltavam quatro. Voltou então a tropa à mata para localização dos companheiros desaparecidos. Três foram logo localizados: o 08, Joaquim de Sá Justina, tinha levado um tiro no traseiro e estava desmaiado debaixo de uma moita; o 22, Maneco da Ordália, agarrado a um toco, “debulhava” um terço com a calça toda molhada na frente e borrada atrás; o 49, Geraldo Cavalo, do alto de uma árvore de espinhos, não conseguia gritar nem descer. Quanto ao 33, o Gato Espantado, foi visto pelo 42, o Pitico, em desabalada carreira rumo a Divinópolis logo no começo da fuzilaria. - E os perigosos ladrões e subversivos? - Nunca existiram. O furto dos fios era feito à luz do dia pelos próprios empregados da Estrada... Coisas dos competentes “arapongas” da Centro-Oeste que não podiam ser comentadas na ocasião pelos ferroviários sob pena de demissão sumária e recolhimento ao DOPS para quem desobedecesse... A LISTA DOS ZÉS Este jornal publicou a estimativa da população atual de Paraopeba, segundo dados fornecidos pelo IBGE. São 19.564 pessoas que viviam na cidade e zona rural em 1998 o que demonstra o crescimento significativo de quase 100% em 18 anos, pois pelo recenseamento geral de 1980, o número de habitantes era de 10.836. Fazendo-se uma retroprojeção da variação populacional da cidade, estima-se que por volta de 1950 existissem na sede do município e zona rural cerca de 2.500 habitantes. Desses, dentro de uma certa lógica, metade seria homens e, entre estes, uma incrível porcentagem de Josés. Algo em torno de 8%, o que se constitui, convenhamos, em um índice bastante elevado. Eram Zés de todos os tipos e condições sociais ou financeiras. Zés prefeitos, vereadores, profissionais liberais, funcionários públicos, ruralistas, comerciantes, industriais, operários, prestadores de serviço, estudantes, mendigos, enfim gente das mais variadas atividades e qualificações. Alguns, com idade avançada, já haviam dado muito de si em benefício do progresso da cidade; vários, mais novos, em plena capacidade física, ao lado de outros contemporâneos, eram a base do desenvolvimento local e os demais, ainda jovens, deixavam antever um futuro ainda mais promissor para a comunidade. A maioria era natural do município mas Zés forasteiros vieram se juntar a toda a população e num esforço conjunto, colaboraram decisivamente para o desenvolvimento local em todos os setores. Muitos partiram para outros destinos ou mesmo outros planos. Mas o esforço de cada um ficou marcado para que as futuras gerações se espelhassem na sua determinação e consolidassem seus ideais ao lançarem as estruturas básicas para o progresso de uma cidade e até mesmo de uma região. Nesta pesquisa relacionamos os Zés e seus “derivados” (grafados como eram conhecidos à época) que nossa memória foi capaz de catalogar, residentes em Paraopeba e zona rural, principalmente no povoado de Vargem do Paga-Bem, onde o autor passou parte de sua infância e juventude, no final dos anos 40 e princípios de 50. Eis a relação: - Zé Capanema, Zé Baiano, Zé Dalle, Zé Campolina, Zé Teófilo, Zé Polônio, Zé Mutengo, Zé Guizo, Zé Comprado, Zé Wandy, Zé Melodigo, Zé do Dino, Zé de Nenê, Zé Branquinho, Zé Capeta, Zé Modesto, Zé Maurílio do Otávio, Zé da Corina, Zé Nonato, Zé Guilherme, Zé do Gido, Zé Heleno, Zé Sampaio, Zé Conrado, Zé Gomes, Zé do Antonino Rocha, Zé Binga, Zé Praxedes, Zé Luiz. E mais: - Zé Preto, Zé Henrique, Zé Pão, Zé Candinha, Zé Leitão, Zé do Guache, Zé Capuano, Zé Mingau, Zé do Gilu, Zé Barbeiro, Zé do Adralino, Zé Dimas, Zé Mosquito, Zé Gonçalves, Zé do Padre, Zé Milito, Zé da Diogna, Zé Raio, Zé do Higilo, Zé Maia, Zé Tolentino, Zé Batista, Zé Maria Pedreiro, Zé Pindoba, Zé Compadre, Zé do Banco, Zé Calango, Zé Petronilho, Zé da Zu, Zé do Tão, Zé Polidoro. Ainda: - Zé Prego, Zé da Rita, Zé João, Zé do Nemésio, Zé Ponciano, Zé Maurílio do Padre, Zé Facão, Zé Rim, Zé Pequeno, Zé Botelho, Zé Alves, Zé Camueca, Zé Catarino, Zé Picolé, Zé Ribeiro, Zé Portápio, Zé da Joaquina, Zé do Jorso, Zé Valu, Zé Gato, Zé Campos, Zé Dimas Filho, Zé Lamarão, Zé Ramos, Zé Coró, Zé do Alfredo, Zé Manoel, Zé Cebola. E os “derivados”: - Zezinho da Tiola, Zezinho do SAPS, Zezinho de “Sá” Maria, Zezinho do Mucambo, Zezinho da Inês, Zeca do Davi, Zezico do Zé Gonçalves, Zezinho da Lilia, Zezico da Filó, Zezinho Melodigo, Zezé do Embiruçu, Zezé de Elvira, Zezé Melquíades, Zezé do Joaquim Cabo, Zezito. Apesar do auxílio dedicado de colaboradores, a quem agradecemos, é claro que há omissões na elaboração da lista. Ressaltamos contudo nosso propósito em homenagear a todos os Zés de Paraopeba, alicerces indiscutíveis do progresso e desenvolvimento da cidade! DELÍRIOS EM DOSE DUPLA - Pois é cumpade Perera. Cê tá veno aquela murtidão de istrela lá in riba? Pois foi eu que botei elas tudo lá... - Deixa de bobage, cumpade Caitano! Aquilo foi criado pur Deus para o incantamento de todas as pessoa... - Deus ajudô e muito. Mais quem deu a idéia foi eu e os primeiro passo tamém foi eu qui deu... - Cumo assim... - Foi numa noite de São João e nessa ocasião o céu era todo iscuro e quando não tinha lua, dava inté medo de oiá pra riba. Quando acabô as comemoração da festa, cumpade Fulô me pidiu que cabasse de apagá a fuguera pra ivitá argum incêndio. Eu intão fui lá na cacimba, peguei uma cuia dágua e vortei pra jugá no fogo. A fuguera era grande e ripiti a viage outras veis. Quando tava quase tudo apagado, eu peguei uma brasinha numa cuié pra mode acendê meu cigarro e soprei ela. Ah cumpade Perera, num te conto nada! O meu sopro foi tão forte que as fagúia da brasa esparramarô e com a força do vento foram subino, subino, até chegá lá no céu formano essa belezura qui ocê tá veno hoje... - Intão foi isso, cumpade Caitano! Não foi Deus não? - Bem, cumo eu disse, ele deu uma mãozinha, fazeno as fagúia se murtiplicá e pregano elas lá no arto... Mais quem cumeçô tudo foi eu. Dispois qui tava tudo arrumadinho lá in riba, os intindido batizô as istrela mais maió, dano o nome de constelação as qui tava perto uma das otras. Aquelas cinco qui ocê tá veno lá pro lado do Morro da Bocaina é o Cruzero do Sul. Aquela lá pareceno gancho é o Iscorpião. Tem as Treis Maria todas incarriadinha, a Ursa, e otras qui num guardo o nome... Ocê pode vê, cumpade Perera, que um céu istrelado cumo hoje é a coisa mais bonita qui inziste... - É cumpade Caitano, eu aquerdito no qui ocê tá falano pruquê eu tamém criei uma istrela... E foi de perpósito e não pur acaso. Umazinha só, mais bunita, mais maió, mais séria e briante que quarqué das que ocê fez e qui num ficasse lá de riba piscano pros otro cumo as sua ... - Conta, cumpade Perera, cumo ocê fez isso... - Eu tava numa madrugada lá no arto do Morro da Pitanga, oiano pro céu, admirano as beleza das istrela qui tava garrada nele. Aí arrisurvi eu tamém criá uma. Mais eu quiria que ela fosse diferente, qui briasse quase cumo o sol e qui sua luz atraísse todas as pessoa pelo fulgô e imponência de seus raio. A luz dela divia sê firme, forte, facera... - E cumo é que ocê fez? Jugô fagúia tamém pra riba? - Não, eu num tinha nem caxeta de pau de fosqui, nem binga. - Cumo foi intão? - Peguei todo o meu amô, isprimi nas parma das duas mão e com toda a força juguei pra riba. Dispois de uns minuto vi aquilo virá uma bola de fogo qui foi indo, foi indo, inté pará lá no céu, perto de onde nasce o sol, virano uma istrela e de lá pareceno me oiá e sorri. Vortei lá no morro muitas e muitas veis pra oiá minha istrela e isperá que ela viesse um dia para eu vê ela de pirtinho e recebê pelo menos um gradicimento pur eu tê criado ela com todo o amô qui eu tinha. Nunca veio e eu parei de isperá ela lá no morro. Fui intão pra otras banda, sem a istrela e sem ninhum amô no coração... - E intão? - Dispois qui eu disisti de isperá, sube qui um dia ela desceu. Mais, coitadinha, se isqueceu do meu nome, se lembrano só do sobrenome e ficô junto de um otro Perera qui não era eu... E ela parece que inté gostô pois viveu muito tempo na companhia dele. - Ocê intão criô uma estrela qui te trocô pur otro, né cumpade Perera? - Não é isso cumpade Caitano. Premero, ela num tinha ninhum cumprumisso cumigo. Dispois, num pudia querê se aproximá de uma pessoa que num tinha nem figura, nem porte, nem traquejo pra atraí ela. Fez ela muito bem em sigui sua vida junto ao otro Perera. Quanto a mim, fui passano pela vida, sofreno muito pelo abandono da istrela, e sem ninhum amô pra dá a ninguém pois o meu foi todo consumido na criação dela. - E tá assim inté hoje? - Não, cumpade Caitano. O cumpanhero maguô a istrela e dispois de muito sofrê ela vortô pra donde tinha saído, lá no arto do céu, levando em sua companhia umas istrelinha que nasceu no seu jardim. - Tá lá ainda? - Tá e cumo tá bunita! Os ano passô e ela continua linda cumo nunca. Parece inté qui pur milagre agora nós já fala um cum o otro. De longe, só de longe. A istrela, ainda com as cicatriz doloridas pela dô da traição sufrida, incoeiu-se dentro dela mesma e nunca mais quis a aproximação de otra companhia... Veve sozinha, agora já separada tamém das istrelinhas que já encontrô seus caminhos definitivo, amparadas pela mão firme e sigura de sua criadora e protetora. - E eu posso vê ela? - Ocê e todas as pessoa do mundo. É só oiá pro nascente, ao raiá do dia, dispois do amiudá dos galo. Só que o sol aparece e a istrela foge das vista dele pois ele tamém é paxonado pur aquela maravia, e dá as cara só à noitinha mostrano toda sua elegança e imponença, indo dispois repousá das atividade que izecutô durante o dia intero lá atrás do Morro da Gabiroba. - E essa istrela não tem nome como as qui eu criei? Não faz parte de arguma constelação? - Uns chamam ela de istrela darva, istrela da manhã, istrela matutina, quando ela aparece cedo, no horizonte; e istrela vespertina, istrela da tarde, vésper e otras quando ela aparece à noitinha. A minha antiga fessora disse que o seu nome é Planeta Vênus e eu fui oiá no dicionaro o qui era isso. E o qui tá iscrito nele é muito certo: ela é qui nem “mulher formosíssima” que inspirou o italiano Milo a fabricá a sua famosa Vênus, qui tá num Museu muito longe daqui. E dos istudioso ela é cunhicida cumo “o mais brilhante dos planetas, a 260 milhões de quilômetros da terra” (tarvez a distança que me separa dela), além de outras difinição. Tá inté pareceno que eu sou intindido em arguma coisa, hein cumpade Caitano... - Às veis a gente iscurrega mesmo, cumpade Perera. E ocê, cumo é que chama ela? - A istrela que me acumpanha a vida toda, de quem eu num isqueço um só momento e qui nasceu numa atitude qui tomei lá no arto do Morro da Pitanga de intregá meus sentimento só pra ela, tem um nome: Esmeralda Maria, a deusa qui foi criada pelo meu amô... A NOITE AO MEIO-DIA - Bas noite... Vamo apiá... - Assim o Manoel da Silva Alvarenga Vasconcelos - nome aristocrático de uma pessoa muito humilde - recebeu o visitante desconhecido na porta de sua casa à noitinha, depois de um dia ensolarado e de calor sufocante de um mês do verão de 1947. - Bas noite. Eu sou o Oswardo, qui todos trata de Nenê Macaco e vim aqui pra mode chamá ocê pra ajudá nois a dá a premera capina lá na minha roça no morro da Bocaina. Suspendendo a lamparina à altura da cabeça para melhor visualizar o visitante, o Manoel, mais conhecido lá pelos lados da Fazenda do Algodão, de onde se mudara recentemente para a Vargem do Paga-Bem como Mané Murrinha, insistiu com o Nenê Macaco: - Vamo apiá, sô Nenê. É só num arrepará na disarrumação da casa, pois nois chegô antonte e a Crarice ainda num teve tempo de arrumá todas as coisa no lugá. Mudança é um disarranjo danado. - Vai deitá, Pirigoso - concluiu o Mané dando um chute no traseiro de um macilento cachorro preto que insistia em latir, estranhando a visita inesperada. - Só late, mas num morde não, sô Nenê. Entra e fica à vontade. - Pois é, sô Mané. Chegô a hora de fazê a premera capina lá na roça e tamo cum pouca gente esse ano. O Remundo Bigode disse que ocê é bão de inxada e é disso que tô pricisano... - É, o cumpade Remundo é meu cunhicido antigo e inté primo longe de minha muié... - Nois vai cumeçá na sigunda-fera e eu pago quatro mirréis pur dia, livre. Só qui o custume daqui é cumeçá o trabaio quando o sol nascê. Quando ele disaparecê lá atrás do morro das Cruzinha, nois vai simbora. A noite foi feita por Deus pra separá os dia e nois discansá pra pudê levantá mais animado e pegá no duro traveis. Quero avisá tamém qui ocê deve levá os cigarro já inrolado pois num gosto dos camarada ficá picano fumo e ajeitano paia na hora do sirviço. - Tá cumbinado, sô Nenê. Na sigunda o sinhô pode contá cumigo. Amanhã já vô amolá a minha jacaré de libra e meia pra num fazê feio nos eito. E na segunda-feira seguinte, antes do sol nascer, lá estavam cerca de 20 homens, todos prontos para iniciar a capina da roça. A plantação compartilhada de milho e feijão das águas era de grandes proporções para os conceitos locais. O morro da Bocaina que fazia parte dos terrenos do Alcides Cunha, era utilizado na base do arrendamento e o Nenê Macaco, em vista da dimensão avantajada de sua lavoura, era o único da região que não podia adotar o sistema de mutirão ou “troca de dia”, muito usado por todos os agricultores. Era a ocasião em que o pessoal recebia dinheiro vivo, propiciando a compra de roupas, remédios e algum acerto pendente nas vendas do João Pio, do Antônio Marques ou do Leonel Mota, lá em Paraopeba. Na segunda semana de trabalho, foi que tudo aconteceu. Quarta-feira, céu azul sem nenhuma nuvem, calor forte, logo depois do almoço o tempo começou a escurecer. - Será qui foi aquela sopa de bucho cum ora-pro-nóbis qui cumi onte de noite que tá me fazeno mal? - pensou o Joaquim Cara-Ruim - Minhas vista tá iscurecendo ou já tá ficano dinoite mesmo? No eito ao lado, o Zé Manguara também estava achando esquisita a situação: - Será qui Deus tá me castigano pur eu tê ficado iscundido atrás da moita de pita oiano as perna da Maria Preta quando vai buscá água lá na lagoa da Maria Bernada e levanta a saia arriba dos jueio pra ela num moiá? Minhas vista é boa e tô sintino agora qui ela tá meia nuviada... Perdoa eu, Santa Luzia!... E o dia foi gradativamente escurecendo. Os passarinhos procuravam os ninhos, as vacas, lá em baixo no vale, tomavam o caminho do curral e até apareceram algumas estrelas no firmamento. Estava tudo muito esquisito e ninguém compreendia a razão do anoitecer tão prematuro. - Todo mundo pára de capiná, gritou o Nenê Macaco, acocorado sobre um toco de angico.Tá muito iscuro e num quero qui seje cortado ninhum pé de mio ou de fejão inveis de mato. Amedrontados os camaradas se reuniram junto a uma árvore e o João Caroba foi o primeiro a falar: - Será o fim do mundo ou é São Pedro qui arresorveu diminuí os dia? - Né nada disso não, disse o Raimundo Bigode, rezador fervoroso e benzedor competente. - Isso é castigo pelas marvadeza que os povo anda fazeno. Ocês num viu falá da guerra? Mataram muita gente e o Pai Eterno deve tê ficado nervoso... E tirando do bolso um terço, começou a rezar, pedindo a todos que o acompanhassem. Antes que o terceiro terço fosse recitado, o dia começou novamente a clarear e o Nenê Macaco determinou que o serviço fosse reiniciado. No sábado, na hora do acerto, lá estavam todos em volta da lata emborcada, usada para o transporte e depósito de água para o pessoal e que era improvisada como mesa de escritório pelo Nenê Macaco. - Cirininho! Tá aqui 24 mirréis dos seis dia! - Brigado, sô Nenê. - Chico Preto! Tá aqui seu dinhero, discontado o litro de criosene e as 200 grama de fumo capuirinha qui ocê mandô trazé lá de Paraopeba. Vinte e um e quinhento. Tá certo? - Tá, sô Nenê. Buré, João Caroba, Rundungo, Cangaia, Remundo Bigode, Zé Preto, Zé Manguara, e assim todos iam sendo convocados a receber pelos dias trabalhados, até que foi chamado o último: - Mané Murrinha! Tá qui vinte e quatro mirréis pelos seis dia. - Tá certo não, sô Nenê. - Pruquê? Seis dia a quatro mirréis, cumo combinamo, dá vinte e quatro mirréis... - Cuntece qui num foi seis dia. Foi sete... - Sete? - Inhô sim. Quarta-fera nós teve dois dia. Foi o sinhô mesmo qui disse qui inquanto tivé sol é pra trabaiá e a noite é pra discansá e separá um dia do otro. - Mais aquilo num foi noite... - O céu num tinha ninhuma nuve, ficô tudo iscuro de repente e nois teve inté de pará de capiná. Foi noite mesmo. Se num foi, o sinhô deve ispricá o qui cunteceu ou intonces pagá eu mais um dia - concluiu o Murrinha. Não tendo como explicar o que acontecera e para garantir a sua filosofia óbvia de que a “noite separa os dias”, Nenê Macaco teve de se curvar à situação e avisou a todos: - Cumo eu só truxe o dinhero pra pagá só seis dia, na semana qui vem eu acerto coceis o dia a mais que nois teve na quarta-fera... *** Excluídos o natural exagero e boa parte do “tempero”, naturais em narrativas desse tipo, justifica-se plenamente o apavoramento generalizado causado pela penumbra que envolveu a região em um dia claro do verão de 1947 em conseqüência do eclipse total do sol, cujo ponto de melhor observação foi a vizinha cidade de Bocaiúva. Em plena era da informática, internet, televisão, telefonia celular, muita gente acreditou que o mundo fosse acabar quando em 1999 foi amplamente divulgada a ocorrência do mesmo fenômeno da natureza, sobre o qual os astrônomos cronometraram até os segundos da incidência! Não é de se estranhar, portanto, a desinformação de um grupo de camponeses, há mais de 50 anos, quando o principal meio de abordagem e comunicação era o ainda hoje nosso usado “psiu”! MILTÃO VINTE E CINCO - Safado de uma figa, vamo lá no dono do circo pra ver o que ele vai fazer cocê... E o Adolfo, vulgo Apertadinho, devido ao costume de usar sempre camisas abotoadas até o pescoço, foi subjugado pela lapela do seu inseparável paletó de caroá branco, recebendo a ordem do empregado do circo que o surprendera quando já se preparava para subir as arquibancadas depois de ultrapassar a cerca de arame e passar por baixo do pano que circundava o circo que fazia a sua estréia em Água Boa. - Então ocê passô dibaxo do pano, hein seu pilantra? - vociferou o Anastácio, proprietário do circo, que estava diante de um espelho maquiando-se para entrar na arena como o palhaço da troupe. - Curiango, marra o discarado no pé daquela mesa e vai lá na portaria chamá o cabo Mamede pra levá o mardito pra cadeia... - Pelo amô de Deus, sô Nastaço, deixa eu i simbora... Amanhã cidinho eu trago o dinhero da entrada... Eu num posso sê preso não! Num posso causá esse disgosto pra minha madrinha Julieta que além de presidente do Apostolado foi quem me criô indesde piquinininho. E o qui num vai dizê o padre Furgenço quando vié no 3º dumingo celebrá a Santa Missa e subé qui eu, seu sacristão e incarregado da limpeza da capela, foi preso? Um tanto condoído da situação e vislumbrando a solução de um problema, o dono do circo levou o Apertadinho para o fundo do trailer que servia de camarim e disse-lhe em tom coloquial: - Eu tenho uma proposta pra ti fazê. Cumo ocê já viu nos cartaz do circo, nós vai apresentá no sábado qui vem um ligítimo lião africano. Nois num tem bicho ninhum. Só aquele coro qui tá ali pindurado e eu sempre pago arguém pra visti ele e fingi de lião. Se ocê aceitá a incumbença de bancá o animá pode inté assisti o espetaco de hoje das cadera e dispois de amanhã aparecê pra nóis cumeçá os trenamento... É pegá ou sê preso... Não havia alternativa para o Apertadinho. Aceitou a proposta do Anastácio. Na segunda-feira começaram os ensaios: - Fica in pé só de carção qui eu vô te infiá o coro do bicho. Dispois bota as mão no chão e dá uns passo pra frente, arrecoa, dá uns sartinho e fica sempre de cabeça arta. Quando aquela luzinha vremeia lá no canto acendê, ocê abre a boca e pro meio dessa burrachinha de cama-de-ar qui vai sê inlaçada no seu quexo a boca do lião tamém abre pra impatá com o urro da fera qui é feito cum disco lá nas cuxia. Nois vai marrá umas paia no seu trazero e na sua barriga pra fazê uns enchimento pois ocê é muito mirradinho e pricisa parecê qui o animá é muito bem tratado. Nos dias seguintes o Apertadinho voltava para fazer os mesmos exercícios. Não estava muito seguro do papel mas o recuo implicaria na reversão da decisão do dono do circo em não denunciá-lo ao chefe do destacamento e ele ser obrigado a conviver com o Miltão Vinte e Cinco, único preso na cadeia local e que estava aguardando julgamento na sede da comarca, acusado de haver estuprado uma menina de 8 anos na zona rural do lugarejo. O Miltão era um indivíduo alto, muito forte, que trajava constantemente um calção roxo com bolinhas salmão, deixando à vista o seu negro tórax onde alguns fios encaracolados faziam companhia à espessa barba e cabeleira preta encarapinhada, matizada de amarelo, depositária que era de camadas de poeira que se levantava da rua lateral à cadeia quando da passagem de algum veículo. Quanto ao apelido Vinte e Cinco, uns diziam ser a sua idade; outros, o diâmetro de seus bíceps retezados; alguns achavam que era a metade do número de sua alpercata; mas a maioria afirmava ser a medida aproximada de uma das partes de sua anatomia. - Amanhã, no disfile do acumpanhamento do paiaço pelas ruas, nois vai fazê a prova difinitiva de seu jeito pra lião - disse o Anastácio ao Apertadinho após o treino da sexta-feira. - Ocê vai intrá na jaula qui a carretinha vai puxá. Fica deitado, com a cabeça in pé qui nem o lião do cinema e quando a luzinha vremeia acendê, ocê abre a boca, fingindo urrá. Os arto-falante faz o baruio. Até que foi bem o teste nas ruas. Desempenho razoável no sincronismo com o som do amplificador e porte aceitável durante o desfile. No dia seguinte, circo lotado, a expectativa toda era para a apresentação do leão. Na última parte, depois de alguma espera, foi colocada na arena uma grade circular com cerca de três metros de altura e quatro de diâmetro e no seu interior o domador brandia um chicote e falava das habilidades do leão que dizia obedecer cegamente as suas ordens. Pouco depois uma jaula foi encostada à portinhola da grade e de lá saiu o Apertadinho, depois de alguma resistência pré-estabelecida, e, sob o comando do domador, começou a fazer o seu número. Subia e descia de uma cadeira, corria em círculos, ficava de pé e urrava nervoso ao estalar do chicote e ao ver acesa a luzinha vermelha. No grande final, estava prevista a ultrapassagem do leão pelo círculo de fogo. Acendida a estopa embebida em gasolina, o Apertadinho tomou distância, correu e saltou tentando ultrapassar a barreira incandescente. Contudo, não calculando bem o salto, atingiu com a cabeça a parte superior do aro sustentado pelo domador por um longo cabo de madeira que escapuliu de suas mãos pelo impacto, anelando-se ao pescoço do leão e incendiando a sua juba. Quando pressentiu a gravidade da situação, o Apertadinho correu para o lado do domador na esperança de socorro, mas este também apavorado alcançou a portinhola da grade, por ela escapando, acompanhado de perto pelo leão em chamas que tentava fugir do interior do circo e atirar-se na pequena fonte que existia na praça. Para isso teria que ultrapassar a tumultuada platéia e já com o fogo atingindo também as palhas do enchimento de seu traseiro, aos pinotes alcançou a portaria, deixando atrás de si algumas pessoas chamuscadas. Aliviado pelo contato com as águas poluídas da pequena represa, o Apertadinho começou a despir-se da pele do leão para tentar fugir, mas foi abordado pelo cabo Mamede e por seu auxiliar, o soldado Pedro da Bilota que o perseguiam desde o circo. - Ah! Intão é ocê, Apertadinho? Inganano o púbrico e ponhano em risco a sigurança dos cidadão! Teje preso! Depois de haver sido levado à farmácia onde não foi constatada nenhuma queimadura mais grave os militares conduziram o Apertadinho à prisão. Miltão desligou o rádio de pilhas que trazia junto à orelha direita, esfregou as mãos, deu uma lambida nos grossos lábios e num sorriso um tanto maroto deixando aparecer todos os seus quatro nicotinados dentes, exclamou ante o olhar angustiado do novo companheiro: - Até qui infim vou tê uma cumpanhia! Vamo trocá idéia a noite inteira, né sapecadinho? O derradeiro pedido de clemência do Apertadinho foi bruscamente rejeitado pelo cabo Mamede: - Num tem jeito não! Ocê cometeu duas infração: farsidade ideológica e provocação de tumurto. O doutô delegado vem dispois de amanhã e pode dicidí o seu caso. Até lá ocê fica aí com o Mirtão. Considerando os bons antecedentes e atendendo aos pedidos de Dª Julieta, o delegado não abriu inquérito e ordenou a liberação do preso. Entretanto, a partir da convivência com o Miltão na cadeia, houve uma mudança radical: o Apertadinho passou a ser conhecido na localidade como Adolfo Alargadinho. Francamente, não sei a razão... NA ROTA DA ERVA E DO PÓ DO CAPETA O assessor, com uma fita cassete à mão, entrou esbaforido no gabinete do deputado Zeca Melo, interrompendo o complicadíssimo “jogo da velha” que ele disputava com sua loura e decotada secretária predileta e foi logo dizendo: - Deputado, até que enfim consegui grampear a conversa do Juca Mutamba com outro elemento de sua quadrilha de traficantes daqui da capital. Descobri que, para disfarçar, ele liga sempre da casa de um vizinho, onde existem dois enormes cães pitbull, o que dificultou muito a minha tarefa em escalar o muro e instalar nos cabos os respectivos grampos. - Com essa prova conseguirei desbaratar a ramificação do narcotráfico e, o que é mais importante, aparecerei graciosamente na mídia e a reeleição estará garantida, disse eufórico o deputado. - A qualidade da gravação não é muito boa, mas dá pra entender razoavelmente o seu conteúdo. Como disse, foi feita com muita dificuldade, valorizou o assessor. - Vamos logo, liga o toca-fitas e ouçamos o que ela contém, colhendo as provas para desbaratar mais essa quadrilha de narcotraficantes e cuja divulgação irá alavancar a minha próxima candidatura. - Mundico - começava a gravação - ainda hoje, pelo ônibus das 5 hora, vô mandá o pó qui cunsigui arrumá e ocê disse que o pessoal aí do mercado tá recramano a farta. As imbalage do fumo vai tamém e tá em amarrado de um quilo dentro dum saco. Ocê aperpara ele diritinho e manda tamém lá pros home. A droga de sua sogra vai junto e vê se invia ela pra casa do Chico Doido, lá em Betim. Tá cumigo indesde feverero e já tá na hora de otro sê responsave pur ela. Tô aproveitano tamém pra mandá o craque que ocê disse qui vai sê fáci incaxá no juvenil do Atrético ou do Cruzero. Se num dé, leva ele pro Pitangui ou Santa Cruz onde ispero qui seje isprementado e aceito cum menas inzigença. - Basta - interrompeu o deputado. Esta é a prova de que eu preciso. Amanhã volte à cidade e convide o Juca Mutamba a vir ao meu gabinete. Vá à casa do tal Mundico, apreenda o material e aqui tudo estará preparado para a apresentação do narcotraficante e das provas materiais de suas atividades criminosas à imprensa. - Não será melhor levá-los à polícia, deputado? - De jeito nenhum. Tenho que aparecer perante os eleitores e a polícia não vai permitir que eu faça o indispensável “auê” em suas dependências. Tenho que aproveitar a oportunidade, meu caro, e usufruir do impacto que a propaganda gratuita me proporcionará. Depois da entrevista coletiva, entregaremos os traficantes às autoridades, finalizou o deputado. Câmeras ligadas, flashes engatilhados, microfones testados, repórteres a postos e eis que chega o Juca acompanhado de sua sogra e de um dos filhos, seguidos do assessor e de dois seguranças que transportavam quatro galões e um saco de nylon amarrado pela boca. - Então Sr. Juca, o que tem a dizer sobre a cocaína acondicionada nestas latas? - Tô intendeno não, doutô. Num sei nem o qui é isso não. Dentro das latas tem é pó ou rapé cumo ocês fala aqui na capital. Nós fornece ele desde muito tempo para um fumero do Mercado Central e ele já tava arrecramano do atraso das entrega. - E a maconha que está neste saco? - Num é maconha não, doutô. Pode abri ele e oiá. É fumo mermo e dos bão qui veio pra mim lá de Goiás e eu pidi ao Mundico pra torrá e muê ele, pois indonde eu moro tá danado pra fartá luz e a aperparação tá seno muito sacrificosa. Já meio descontrolado, prosseguiu o deputado: - E a droga de sua sogra, onde está? - Tá ali, doutô, sentadinha naquele canto. A Minervina, minha muié, é qui vai ficá muito braba cumigo pur eu tê chamado a mãe dela de droga. Mais a véia é isso mesmo. Fofoqueira, come muito e toma banho só nos sábado. Já num tava guentano mais e pidi o Mundico pra mandá ela pra casa do Chico Doido, qui tamém é genro dela, pra me dá sussego pur uns meis. - O que diz sobre o craque que também veio e nós não localizamos? Querendo viciar a nossa juventude esportiva com esta droga da pior espécie, não é Sr. Juca? - Tá ali tamém, oia. É o meu fio, o Abeia, qui o Mundico prometeu apresentá pro vizinho do auxiliá do cortadô de grama lá do Minerão pra fazê uns teste nos crube da capital. Acho que vai sê aprovado, pois ele chuta cas duas perna, defende bem de centerarfo e até já garrô no gol numa emergença. Se num é ainda, o sinhô pode aquirditá que vai sê um grande craque! Vai sê nome certo pra seleção! Não se dando por vencido, o deputado energicamente ameaçou: - Mesmo assim, Sr. Juca, vou pedir a quebra do seu sigilo bancário, telefônico e fiscal para termos a certeza da lisura de seu comportamento. - In premero lugá, o qué qui é sigilo? - É o segredo de suas transações junto aos bancos, empresas telefônicas e Receita. - Carece não, doutô. Telefone eu num tenho, pois é danado de caro e eu num posso pagá as conta todo meis. O banco que pudia mi cumpricá é o banco lá da praça, onde eu e a Minervina fizemo uns rolo quando nois era noivo. Coisa de gente nova, intusiasmada com a vida. Mais ele num fala, né doutô? Nos banco de guardá dinhero eu num posso tê conta, pois eles não aceita narfabeto. O segredo da receita eu inté posso apresentá agora pro sinhô. Tá aqui no meu borso e foi o Doutô Totonho, lá do posto de saúde, qui botô nela o nome dos remeido pra eu bebê e vê se mioro de uns cumichão qui cumeça na sola dos pé e vai isbarrá na rigião dos zuvido, dano uns zumbido danado e tirano inté a minha vontade de cumê. Pedindo mil desculpas à imprensa, o deputado mandou liberar o Juca, sua sogra e o Abeia e mandou o assessor levá-los de volta à casa do Mundico. Não houve condições para a continuação do “jogo da velha” com a eficiente secretária e naquela noite o parlamentar não pode comparecer à sessão extraordinária. Tanto ele como a deslumbrante loura estavam terrivelmente extressados... UM DEFUNTO MUITO VIVO - Eu quero qui seu pai seje interrado num daqueles caxão bunito, invernizado, com arça marela e desenhado cuns devorteio paricido cum ramo de flô de fejão desenhado na tampa, qui nem foi o do cumpade Coroné Grigoro, seu padrinho de batismo - exigiu a chorosa viúva Dª Marieta ao filho mais velho, debruçada sobre o corpo inerte do Juca da Rosa, falecido poucas horas antes. - A sinhora sabe qui só in Cordisburgo é qui tem um marcinero que sabe fazê daqueles caxão. Eu vô cunversá cum o Olavo, gerente da fábrica de mantega, e se ele autorizá o transporte no caminhão qui amanhã vai buscá creme nas fazenda da rigião eu passo um telegrama pro Mané Fuinha, ele manda a incumenda e a vontade da sinhora será sastifeita. - Faz isso pur mim, meu fio. Num quero qui seu pai seje interrado naqueles caxão fraco cuberto de pano roxo com franja amarela e qui nas premera pazada o falicido recebe a terra toda in riba da cara. O Juca num merece isso! No trajeto de volta, o caminhão trazia na carroceria além dos latões vazios para a troca pelos que continham o creme para a fábrica de manteiga, a urna amarrada a uma tábua da carroceria, autorizado que fora o transporte pelo Olavo. Na parada da Fazenda da Onça, estava o Chico Mulambo, andarilho de origem nordestina e que tinha o hábito de trazer consigo um gato preto dentro de uma bolsa de pano dependurada no ombro e que observava o ambiente somente com a cabeça de fora. - Ô sô minino, o sinhô pode me levá inté Paraopeba? - perguntou ele ao Ulisses, motorista do caminhão. - Trepa logo e agarra bem nas tauba da carroceria pra num cumpricá a minha vida com um tombo daí de riba. Na região do Morro do Chapéu, nas proximidades da Fazenda do Saco da Pedra, começou a chover, piorando ainda mais as condições da horrível estrada. Para proteger-se do mau tempo, o Chico arredou a tampa, acomodou-se como pode dentro da urna e colocou o gato em uma vaguinha a seu lado. Com alguma dificuldade encaixou novamente a tampa e prosseguiu-se a viagem. Na ponto da Fazenda do Quilombo, o Zé Preto, carregando seis frangos presos pelos pés a uma mangüara e que seriam comercializados e fazer caixa para as despesas do dia, a Virgília e a Maria Grossinha, também estavam à espera da carona e foram autorizados a entrar no caminhão. - Trepa logo, qui já tô atrasado e faz companhia pro baiano qui já tá aí in riba, ordenou o Ulisses. Ao se depararem com a urna e notando a ausência da outra pessoa, os três já começaram a ficar apavorados e concluíram que o companheiro de viagem era um defunto. Escoraram-se na parte traseira da carroceria, o mais longe possível do caixão, posicionando-se a Virgília, a mais supersticiosa, no meio dos outros dois. Em uma subida mais forte, já nas proximidades do fim da viagem, a corda que prendia a urna junto às latas de creme arrebentou-se e ela veio deslizando, atingindo a canela do Zé Preto que encolheu-se todo e fez rápido o sinal da cruz. - Sarve nois, groriosa Santa Rita de Cassa! - balbuciou a Maria Grossinha, protegendo-se ainda mais junto à Virgília. O Chico Mulambo, que notara a presença dos companheiros de viagem, suspendeu a tampa da urna e colocou a mão espalmada para fora em atitude característica de avaliação do tempo, perguntando em voz arrastada: - A chuva já passô, sô minino? Num gesto instintivo de defesa a Virgília soltou as mãos da tábua da carroceria e tentando proteger-se, agarrou-se aos dois companheiros, desequilibrando-se todos e estatelando-se na lama atrás do caminhão. O motorista, sem notar o que houvera acontecido, seguiu viagem. Chegando ao destino, encostou o caminhão na plataforma e o Vicente Lacerda, encarregado da parte operacional da fábrica, deu a ordem: - O Nô e o Chopin qui chegô agora da viage vai armuçá e um dos dois passa na casa do Juca da Rosa e avisa pra viúva que a encomenda dela chegô. O Adelino e o Catita vai providenciá a discarga dos latão de creme. Tira premero a urna com todo cuidado pra num istragá ela. Os dois já não gostaram muito da conversa de urna e já ressabiados subiram na carroceria do caminhão para a descarga. - Adelino, pega na parte mais larga do caxão e discansa ele na carroceria. Eu siguro nas arça dos pé e nois rabeia esse troço pra prataforma, ordenou o Catita. - Sempre eu com o mais pesado, né murcegão? Pruquê nois num inverte? - Cala a boca e vamo discarregá logo o caminhão qui a chuva tá cum jeito de apertá! Quando os dois pegavam as alças da urna para o respectivo manuseio, o Chico Mulambo acordou, arredou a tampa, assentou-se e perguntou com o ar mais inocente do mundo: - Nois já chegô, sô minino? O Catita, deduzindo que era um cadáver que se levantava, saltou a grade da carroceria, atravessou o pátio em desabalada carreira e escondeu-se sob o balcão do armazém do Chico Piculista, do outro lado da rua. Assustado com o grito de socorro do Catita, o gato também tratou de se escapar e, todo arrepiado, refugiou-se sob o caminhão. A rota mais conveniente da fuga do Adelino era pela parte lateral da carroceria e, alcançando a plataforma, entrou esbaforido na sala onde o Olavo atendia a um fazendeiro e foi logo suplicando: - Sô Olavo, pelo amor de Deus! Chama o padre, o delegado, os sordado pra sarvá nois. O difunto qui veio no caminhão tá vivo mais o esprito dele sartô do corpo e introu dibaixo do caminhão! É do jeito e do tamanho de uma onça e preto qui nem carvão! Sarva nois, sô Olavo! O Olavo levantou-se intrigado da cadeira e chegando até a porta ainda pode ver o Chico Mulambo saindo debaixo do caminhão acariciando o seu gato e dizendo-lhe com ternura: - Pessoá isquisito desse lugá, bichano! Apronta uma zuera danada só pruquê nois dois acordemo, levantemo e eu pirguntei se tava na hora de apiá! Tá todo mundo doido, ô xente!... OS FANTASMAS ASSOMBRADOS Tanto no boteco do Zezico quanto no do Nonô Horta, os “sapos” em volta da sinuca, para desespero dos jogadores, eram de uma atividade marcante. - Vai na quatro, Bernado, bota efeito contrário que a sete vai melá - palpitava o Pé de Chumbo com ares professorais - Cê num tá veno que se fizé isso ele vai suicidá, interrompia o Dissales. Ele tem é que recuá a branca, pegano premero a vermeia e dano uma sinuca no Alderano atrás da bola quatro. Os palpites eram os mais variados possíveis e, às vezes, era necessário aos adversários solicitar uma vaguinha em volta da mesa para darem as respectivas tacadas. O grupo só se dissolvia quando um os jogadores perdia a paciência e agredia a turma com alguns palavrões ou ameaçava acionar o taco contra eles. Na tarde daquele domingo, porém, a turma tinha outro motivo a discutir: era a valentia e coragem que o Gestal dizia ter em relação a fantasmas e assombrações que todos acreditavam existir aos montes na região. - Isturdia eu uvi ele dizê qui tinha ido ao sumintero fazê serenata pros difunto! Disse qui ficô das onze até as treis hora da madrugada e num cunteceu nada! - comentou assustado o Alfredo Preto. - Isso num é nada, emendou o Zé Gato. Nas coresmas ele disse qui vai sozinho lá pros lado da Varge do Lobo e da Gruta do Frutuoso caçá araticum toda sexta-fera dispois da meia-noite. Fala sempre qui é pra vê se incontra argum lubisome ou mula-sem-cabeça pra batê um papo! O Bejo, com seus óculos de potentes lentes para amenizar o elevado grau de miopia, logo interrompeu: - Nois pricisa é de dá uma lição no Gestal pra ele deixá de sê papudo! - É fáci, concluiu o Alfredo Preto. Nois seis vamo mandá a Crarice fazê aquelas ropa que os fantasma usa e na quarta-fera nós vai pro sumintero véio e quando o Gestal vortá da casa do Cirilo onde fica inté tarde noivano com a Sanica, nois sai tudo de uma veis só, gritano e correno pra dá o maió susto nele! E, honra seja feita, o Gestal era valente mesmo. O seu porte franzino era compensado por muita coragem e determinação. Em se tratando de assuntos do além, ele jamais fugia a um desafio. Até mesmo provocava situações para provar que realmente não tinha medo de fantasmas, ao contrário da maioria dos amigos que se arrepiavam só ao ouvir suas narrativas. - Já fui várias vezes ao alto do cruzeiro para me encontrar com a famosa luz que assombra todo mundo. Por mais que eu a desafie, ela nunca me apareceu! Queria que viesse para iluminar o meu caminho de volta! - concluía destemidamente o Gestal. Embora achando estranho, a Clarice, profissional das mais competentes, aceitou a encomenda. Seria costurada uma das partes mais estreitas dos lençóis que lhe foram entregues, recortando neles dois orifícios à altura dos olhos. Uma tira de pano cingiria a cintura e evitaria que a mortalha se abrisse na parte de trás. O Gestal, que era alfaiate e amigo da Clarice, ao levar algumas calças para ela arrematar, foi colocado a par da inusitada encomenda, a sua finalidade e até o dia em que seria utilizada. Pedindo o maior sigilo, solicitou que ela lhe fizesse uma mortalha idêntica. Na quarta-feira seguinte, no cemitério desativado que ficava nas proximidades onde é hoje o Asilo Padre Augusto Horta, na Rua Otacílio Negrão de Lima, o Gestal chegou, vestiu a roupa e se postou atrás de uma pequena elevação. Daí a pouco chegaram os seis rapazes, vestiram os paramentos e ficaram à espreita. O relógio da Matriz já houvera batido as dez horas e nada do homem... Um certo temor e nervosia já se fazia sentir entre eles e, com o decorrer do tempo, o medo mais se avolumava... - Só fico aqui até as dez e meia. Dispois disso, disisto de tudo - cochichou o João Agachado com o Antônio do Cabo. - Vamo isperá mais um poco só - pediu o Bejo que, para maior comodidade, portava os óculos sobre a parte externa da mortalha. - É pur aqui qui ele passa toda noite assubiano a “La Cumparsita” e num vai sê hoje qui vai faiá - concluiu. Quando já se aproximava as onze horas, sorrateiramente, o Gestal esgueirou-se para a retaguarda da turma e empostando uma voz cavernosa, perguntou: - Afiná, quantos nois semo? - Seis - disse logo um dos “fantasmas”. - Tem um trem isquisito aqui! Pode contá: um, dois, treis... cumigo sete! Se nois é seis, tem uma sombração de verdade aqui cum nois! E para apavorar ainda mais a turma, subiu a um jazigo, imitou o agouro horripilante da coruja, abriu os braços e, logo após, emitiu o grito sinistro dos fantasmas: - Uuuuuuuuuuuu! Todos, na maior correria, procuravam se safar pelo portão em ruínas, menos o Bejo que devido à deficiência visual, tomou o lado dos fundos do quintal do Tão Bode, que divisava com o cemitério. Claro que não viu a frágil cerca de arame farpado, derrubando-a com o impacto e despertando o Leão, o cão vira-latas que saiu em sua perseguição, latindo desesperado e acordando o proprietário da casa. - Jorge, chama o Alonso qui eu vô pegá a ispingarda lá atrás da porta pra vê se é ladrão qui tá atacano o galinhero! Com uma lamparina elevada à altura da cabeça para melhor difusão da claridade, o Tão Bode vasculhou inutilmente todo o quintal e se deteve junto ao buraco de três metros de profundidade onde uma cisterna estava sendo cavada e o Leão insistia em permanecer latindo. - Percura direito qui eu quero mostrá pra esse gatuno cumo dói uma carga de chumbo no trasero! - dizia ele aos filhos. Sem os óculos que haviam se perdido no impacto com a cerca e uma torção no tornozelo esquerdo, o Bejo, lá do fundo, só divisava uma tênue claridade e ouvia apavorado as ameaças. Não tinha condição alguma de escalar o buraco onde se despencara na correria e sair daquela vexatória situação, ali permanecendo até o raiar do dia. Içar o Bejo da cisterna foi relativamente fácil. O difícil foi a explicação ao Tão Bode do que ele estava fazendo no seu quintal àquela hora da noite, no fundo da cisterna e, além do mais, ridiculamente fantasiado de fantasma! XANDOCA DENGOSO Há muitos anos, meus vizinhos da Rua Sabinópolis, entre Pedro II e Magnólia, vivem um verdadeiro martírio. Casas somente de um lado da rua e à frente delas um incômodo shopping de carros usados, com os inconvenientes naturais desse tipo de comércio, construído em terreno vago que antigamente servia para as mais variadas atividades. Em certa época uma empresa usou a área para comercialização de veículos velhos, causando aos moradores o desconforto de terem que conviver diariamente com o barulho dos testes de motor, de buzina, de som, de frenagens violentas, que eram ali eram executados. Após a desativação da revenda de carros, parques de diversões e circos de terceira categoria, com todos os seu inconvenientes, faziam do local um ponto favorito para suas atividades. Dª Hermenegilda era sempre uma das pessoas mais revoltadas com a situação. Vivia em uma casa relativamente confortável que o esposo lhe deixara, tendo como única companhia a Xandoca, uma enorme cadela da raça São Bernardo. Usava lentes de contato para amenizar o elevado grau de miopia, pois julgava que óculos prejudicavam a elegância que desejava preservar, pois tinha o sonho de reiniciar sua vida conjugal, apesar dos seus mais de sessenta anos de idade e pouco além de metro e meio estatura. Já havia reclamado várias vezes com o proprietário da má utilização do terreno, feito abaixo assinado dirigido às autoridades municipais, pressionado o vereador em quem votara, sem entretanto conseguir uma solução para o problema. Os vizinhos ocasionais sempre traziam incômodos. O circo que ocupava o terreno naqueles dias parecia ser o pior que ali tinha estado até então. Poucos e péssimos artistas, animais maltratados em jaulas sujas e inseguras, alto-falantes estridentes repetindo exaustivamente músicas de gosto discutível, preços de entrada muito baixos nas sessões diárias e, por isso mesmo, muito mal freqüentado, revoltavam o pessoal da região. Na noite daquela sexta-feira Dª Hermenegilda não conseguira dormir direito. O barulho se estendera até altas horas, impedindo-a do descanso natural. Católica convicta e altamente participativa, levantou-se cedo, foi para a igreja, pediu perdão a Deus pelos pensamentos maldosos que tivera contra o pessoal do circo, comungou como fazia diariamente, ajudou na limpeza do templo e voltou para casa para preparar o almoço. Para não se embaçarem com a emanação do vapor das panelas efervescentes e como não tinha dificuldade em localizar os condimentos para o preparo das refeições, Dª Hermenegilda retirou as lentes e as colocou em uma caixinha, guardando-a na gaveta do armário. Ao dirigir-se à área externa, esbarrou em sua cadela que furtivamente entrara na cozinha e esperava avidamente que lhe fosse servida uma boa refeição. - Já te falei, Xandoca, que não quero ocê dentro de casa - esbravejou Dª Hermenegilda pegando uma vassoura e enxotando-a, mais com ternura do que com agressividade. Ao voltar, Dª Hermenegilda embaraçou-se na cauda do bicho que voltara à posição anterior. - Ocê num me obedece não, né? Pois vô te mostrá. Foi até a despensa, pegou a coleira presa a uma corrente e, disfarçando a sua contrariedade com uma dose de carinho, sussurrou: - Eu num gosto de fazê isso não, mas ocê me obriga a ti prendê no pé de manga, lá no fundo do quintal. Agachou-se à frente do animal, afagou-o como a pedir desculpas pelo ato, envolveu o seu pescoço com a coleira, abotoou-a e comentou baixinho: - Ocê tá cum um mau chero muito forte e seus pêlo do pescoço tá muito grande. Semana qui vem vô te levá no veterinário pra ele te dá um bom banho e fazê uma tosa em seus cabelo que tão muito criscido. Fica inté pareceno que ocê tá mais maió... Docilmente o animal foi conduzido por Dª Hermenegilda ao fundo do quintal, lá ficando preso debaixo da frondosa mangueira, onde lhe foi imediatamente servida uma refeição. - Ocê hoje tá muito mal educada, Xandoca. Devorou a ração qui eu truxe de uma bocada só e ainda quebrou a bacia de plástico pareceno qui quiria cumê ela tamém. Pera aí qui eu vô buscá mais. Ao voltar à cozinha, Dª Hermenegilda teve que atender à porta onde um empregado do circo, portando um rifle, acompanhado de outros dois que traziam respectivamente uma resistente corda e uma bacia de bofe de boi devidamente acompanhada por uma legião de moscas, que muito apreensivo, perguntou à dona da casa: - A sinhora num viu o Dengoso pur aqui não? Inquanto o Careca tava tratano dos otros bicho ele viu a porta da jaula aberta e fugiu. - Quem é o Dengoso? - É um lião que nós tem lá no circo há uns dez ano. Tá muito véio mas quando tá cum fome é muito pirigoso... - Vi não. O bicho qui tenho aqui é a Xandoca, minha cadela de istimação, presa lá no fundo do quintal. Ocês pode intrá pur esse portão aí do lado e percurá. Deus me livre de lião, minino! Eu arripio toda só de ouvi falá nessa fera! - Pra disincargo de consciença nós vai vê, pois o portão do lado da casa tá aberto. Quem sabe ele entrô sem a sinhora se apercebê e tá iscundido lá atrás das bananera? Dá licença... E os três entraram, encontrando-se com Dª Hermenegilda no quintal. - Oia lá, Marreco! Oia o Dengoso marrado na arve! - É mesmo, Furão... Cumo foi que a sinhora cunsiguiu fazê isso? Botá colera e amarrá ele no pau! Nem o Morroia, domadô dele, nunca fez isso... Nós veio aperparado inté pra atirá se ele riagisse. A sinhora tem muita corage, sá dona... Dª Hermenegilda acordou do desmaio três dias depois na unidade de tratamento intensivo de um hospital... OPERAÇÕES MAL SUCEDIDAS Por ser o mais baixinho, eu era o encarregado de transportar o caixote e fiscalizar o movimento da rua, enquanto o Pé de Chumbo e o Zé Cocão penetravam no quintal da residência de D. Cirilo para colher deliciosas uvas que o piedoso bispo cultivava para fabricar o vinho que usava em suas missas. A bem da verdade, eu não tinha mesmo era coragem de ultrapassar a cerca de achas de aroeira que cercava a plantação, pois tinha conhecimento que, patrulhando a propriedade, havia três cachorros que, ao menor sinal de movimentação, se alvoroçavam e defendiam-na das invasões principalmente dos “mininos da tipografia”, como a Venância, serviçal da residência do Nenê, tratava os gráficos da “Gazeta de Paraopeba”. Naquela noite a colheita foi satisfatória. À saída, quando os dois se preparavam para deixar o local, o Zé Cocão inadvertidamente tropeçou em uma lata, despertando os cães que dormiam a poucos metros. Dois deles começaram a ladrar, sem contudo saírem de onde estavam. O outro, o peludo e pequenino Japi, que preferia trabalhar em silêncio, pegou o Pé de Chumbo pela retaguarda quando ele se curvara para levantar o caixote cheio de uvas. Erguendo-se assustado com o ataque, trouxe dependurado na retaguarda o cachorro que embaraçara seus pontiagudos dentes no tecido da velha e surrada calça que usava quando em trabalho nas oficinas, fazendo com que fosse rompido o frágil barbante que a sustentava à cintura, descendo-a até os joelhos. No apavoramento da fuga, mas com os movimentos tolhidos, o Pé de Chumbo caiu de bruços, dando ao Japi a oportunidade de cravar-lhe várias dentadas no traseiro nu, cada uma seguida de angustiantes gemidos e abafados pedidos de socorro. Devidamente espantado o Japi, eu e o Zé Cocão socorremos o Pé de Chumbo e acionamos o Nemésio Madalena, que residia em um quarto nos fundos da farmácia do Otávio Silva, para que ele fizesse os curativos na parte atingida. Entre sonolento e irritado, depois de examinar a natureza e o local dos ferimentos, perguntou matreiramente o enfermeiro: - Que foi isso, Pé de Chumbo? O “aperto” foi tão angustiante que você não notou a presença do ouriço-cacheiro atrás da moita ou você decidiu testar a rigidez dos grampos de algum rolo de arame farpado, ralando-os com essa parte do corpo? Ferimento em lugar mais esquisito, sô!... Nunca vi disso não, uai!... • Acocorado atrás de uma das bandeiras da porta do cômodo das oficinas da "Gazeta", eu era o encarregado de acionar o barbante que passava pela fresta da dobradiça e tinha na outra extremidade uma laçada circulando grãos de milho, na complicada operação de pegar um dos frangos da vizinha Dª Maria Edmundo, que seria sacrificado para a nossa ceia. À minha retaguarda, com um saco vazio às mãos, o Zé Cocão executaria a “operação abafa”, evitando que o bater de asas da ave chamasse a atenção de alguém que passasse pela rua no momento. Do lado contrário, observando pela fresta da outra bandeira da porta, postava-se o Zé Leitão que, com a mão direita levantada, daria o devido sinal para a deflagração da operação, pois da minha posição era impossível visualizar a armadilha. Silêncio absoluto, tensão à flor da pele e eis que aparece um frango, catando aqui e ali a "carreirinha" de milho que o levaria à cilada fatal. Zé Leitão abaixou a mão, o barbante foi acionado e laçada a canela da perna direita do Nenê que, como fazia sempre, usando chinelos com solado de borracha, se encaminhava silenciosamente à oficina para flagar o pessoal em possíveis brincadeiras ou mesmo fumando, o que ele não admitia. Apoiando-se com uma das mãos na grade que separava a porta do recinto da oficina, com a outra, pacientemente, Nenê soltou-se da laçada e, com o semblante carregado, fitou-nos decepcionado, iniciando a merecida descompostura, encerrando-a com a ameaça de comunicação aos familiares das nossas atitudes. Dirigindo-se especificamente ao Zé Leitão, censurou irritado: - Até você, Zé Geraldo, ajudando a pegar aves de sua avó e fazendo coro com os colegas de que seriam gambás os responsáveis pelos prejuízos, conforme comentários dela com a Venância em várias outras oportunidades... Quero que estas oficinas continuem a ser uma escola de cidadãos e não de marginais como vocês acabam de tentar demonstrar com esse ato. Francamente, não dá para acreditar... Indignado, voltou para a redação e, daí a pouco, mandou a Augusta chamar o Pé de Chumbo, que era naturalmente o chefe da oficina, tanto pela sua idade mais alta como também pelos seus maiores conhecimentos profissionais. - Mais bronca, comentou o Zé Cocão. - A culpa não foi minha. O Zé Leitão deu o sinal e eu puxei o barbante - justifiquei preocupado. - Eu abaixei a mão foi de susto quando vi o pé do Nenê dentro do laço. Me confundi todo pois queria mesmo era me embalar e saltar a grade para o interior da oficina... Você é que não entendeu... Daí a pouco, voltou o Pé de Chumbo: - Nenê não abre mão dos conceitos de moral que vocês têm que seguir e não admite que se repita ataques a bens alheios, principalmente aos frangos de Dª Maria Edmundo. Mas, por outro lado, ele tá morrendo de rir da trapalhada que vocês aprontaram... E para que fique demonstrada sua compreensão, mandou esta moeda de dois mil réis, determinando que alguém vá à casa do Bertolino comprar um frango para a ceia. E, mais ainda, mandou dizer que também quer participar e que seja reservada uma coxa bem cozidinha pra ele... Assim era o Nenê! Afável, amigo de todos. Coração maior que o corpo. Mas que apreciava intensamente uma “traquinagem”, não tenho a menor dúvida. PELANCA, O CRAQUE DA CAMISA Nº 2 E quando o Otávio Silva e demais jogadores chegavam ao estádio para o treino das tardes de domingo, lá já estava, acocorado sob o pé de lobeira defronte a casa do Prof. Inar, o Pelanca, titular absoluto da lateral direita do segundo time do Paraopeba Esporte Clube. Tipo singular o Pelanca. Um metro e noventa de altura. Músculos bem distribuídos sob a pele negra, disposição e agilidade temperadas pela atividade constantemente exercida no meio rural, onde a variedade das atribuições exigiam dele a mais apurada forma física. Quando o Otávio, proprietário da bola, das camisas e até do apito e, por isso, presidente e técnico do então decadente Paraopeba, escalava os jogadores nas respectivas posições, havia a recomendação especial ao Pelanca: - Fica aí na direita e vá com jeito pra não se machucar e nem atingir os adversários. - Dexa cumigo, sô Otavo. Vô ficá de harfo dereito, tocano pra baxo, onde sempre gostei de jugá. E o Pelanca levantava-se, atirava a alpercata de sola de pneu de caminhão para o lado, tirava a camisa, arregaçava as pernas da calça até a altura dos joelhos e tomava posição na lateral sem grama do campo. - Tira a faca da cintura, Pelanca! - Posso não, sô Otavo. O cigarro eu apago e ponho ele ditrás da oreia, o chapéu eu vô dipindurá lá no gaio da lobera, mais a faquinha eu num posso dispensá. Sem ela parece que fico meio torto e disiquilibrado pru lado... Os atacantes do time titular - Zezico, Neves, Tucaia, Dilton e Tãozinho da Carmem - por segurança, preferiam sempre jogadas pela direita, evitando confronto direto com o Pelanca, lá do lado contrário. Não que ele fosse violento, mas a virilidade era o recurso usado na execução de sua jogada predileta - o bico - e com ela intimidar os adversários, afugentando-os daquela parte do campo. E o que era mais comum: raramente o Pelanca acertava a bola e, ríspido e estabanado, atingia com as unhas de mais de meio centímetro além da ponta dos dedos, tudo o que se lhe antepunha, fosse a bola, alguma pedra ou o corpo dos jogadores. Chutava tudo, indiscriminadamente! Naquela tarde, por descuido, o Zezico avançou pelo lado do Pelanca e tentou dominar a bola que estava quicando em frente aos dois. Para obstruir a jogada, o Pelanca, firmou-se na perna esquerda e soltou a direita, errando a bola e acertando em cheio os órgãos genitais do adversário que encolheu-se todo e caiu desfalecido na poeira. O treino foi interrompido e enquanto alguns procuravam socorrer a vítima, espargindo sobre ele a água que o Prof. Inar usava para lavar os copos onde servia seu famoso aluá, outros, irritados, circulavam o Pelanca, recriminando a rispidez com que disputara a jogada, ameaçando agredi-lo. Rompendo o cerco, o Pelanca encostou-se no barranco e, também nervoso com o acontecido, encarou os ensandecidos colegas, procurando desculpar-se e desafiando-os: - Oia, eu fui chutá a bola, errei ela e acertei o Zezico. Num foi pru gosto não. Meu jeito é esse mesmo. Já pidi discurpa pra ele. Agora, se oceis acha qui vai me batê pur isso, peço que venha só treis de cada vez. Mais do qui isso, sô obrigado a usá de outros ricurso. E acariciando o cabo da faca, pôs fim às ameaças do covarde grupo, subindo o barranco em direção à lobeira, onde vestiu a camisa, desdobrou as pernas da calça, calçou a surrada alpercata e, por um trilho no meio do cerrado, tomou a direção de casa. Nunca mais voltou ao local! Esse foi o fim da carreira do Pelanca, ou melhor do Jovino Pereira de Oliveira, que ao contrário do título da matéria, jamais foi craque, sempre jogou sem camisa e, conseqüentemente, nunca teve o número dois estampado nela, até porque àquela ocasião isso não era obrigatório pelas leis do futebol. Pelanca foi um dos ídolos de minha juventude pela sua correção, humildade e amabilidade. Porém, quando tirava as alpercatas e a camisa, arregaçava a calça, entrava em campo e colocava os músculos em atividade, transformava-se numa fera indomável! Saravá, Jovino Pelanca, meu “tipo inesquecível”! Que Deus o tenha! COLETE PRETO Nas décadas de 49 e 50, muitos habitantes de Paraopeba eram conhecidos mais pelos sobrenomes advindos de sua ascendência, profissão ou domicílio que pelos reais registros civis. Tínhamos, à época, Antônio Padeiro, Zé Barbeiro, Pedro do Elói, Geraldo do Lamindo, Zezico da Filó, Quintino do Brejo, Zezinho do Mucambo e uma infinidade de outros cujas identidades eram absorvidas pelos portadores e adotadas naturalmente pela comunidade. Havia também os apelidos, alguns contrastando com o perfil dos portadores, como o Zé Miúdo com quase dois metros de altura e o João Grande, com estatura pouco superior à de um anão. O atlético negro Zé Branquinho e o Negrão, que de sueco só não possuía o porte físico e os olhos azuis. Existiam ainda os criativos, calcados nos atributos físicos, como o João Agachado, o Jeep, o João Vermelho e outros. Mas a grande maioria era de alcunhas gaiatas e sem sentido, como Camueca, Chopin, Pangu, Catita, Palheta, Tucaia, Chiana, Pé de Chumbo etc., que eram absorvidas pelos portadores, até por que não adiantava nenhuma reação em contrário, passando a ser a sua real identidade. Porém o João Garrote e o Colete Preto nunca aceitaram seus apelidos. O primeiro era um tipo popular e reagia à provocação tentando obrigar o interlocutor a cheirar o bastão que sempre trazia consigo. O outro, o Lausico, pratista competente da “Lira Espírito Santo”, reagia vigorosamente e ofendia principalmente a mãe de quem o provocava. Naquela tnanceiro como arde de 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, toda a população se preparava para a procissão. Padre Herculano, entusiasmado tanto com o sucesso fio espiritual da festa, organizava tudo: - O Licurgo vai à frente com o Crucifixo, abrindo a procissão. Do lado direito, os “senhores homens” seguirão o Luiz Rocha e as “senhoras mulheres” o Geraldo do Embiruçu que levarão as respectivas lanternas. E o cortejo, precedido pelo Zé Guizo que a cada três minutos soltava um foguete de vara, começava a se movimentar e a tomar forma. - Agora sai o andor de São Sebastião e, logo depois, no centro das alas do Apostolado, o estandarte e a imagem do Sagrado Coração de Jesus - ordenava o sacerdote. Organizados pela Maria do Vito e a Rosa, os anjinhos com asas multicoloridas e alguns até sem elas, iam à frente das Filhas de Maria e dos Congregados Marianos que faziam a guarda de honra à imagem de Nossa Senhora, com seu manto azul esmagando a serpente com os pés descalços e que era conduzida no seu andor ornamentado com flores de papel crepom, fitando com seu olhar misericordioso os milhares de fiéis. Itinerário costumeiro, saindoá da Matriz, descendo ao lado da casa paroquial, passando em frente da fábrica de manteiga, seguindo a rua do Asilo e atingindo a hoje Av. Antônio Cândido até a Praça Coronel Caetano, onde margeava a Prefeitura, desfazendo-se no ponto onde fora iniciada. Encerrando o piedoso ato, vinha o Coral “Padre Augusto Horta”, onde a Doninha e a Nhazinha ditavam o tom e o compasso dos mais variados hinos sacros em homenagem à Mãe de Deus, revezando seus cânticos com a execução de entusiásticos dobrados pela “Lira Espírito Santo”, solados pelas clarinetas do Nenê, do Licínio e do Nemésio, reforçadas nesse dia pelos trombones do Zebedeu e do Constantino, lá do Cedro. Ditando o ritmo das músicas, o Deusdedit, o Juvenal, o Raimundo e o Dozinho Marinho, marcavam o andamento com seus saxs, o Zé Barbeiro fazia o contra-canto ao bombardino e o Portápio, com a tuba, orientava a percussão com o Vitinho no tarol, o Lobo na caixa surda, o Alfredo Preto no bombo e, no final da banda e da procissão, o Lausico, nos pratos. Em frente ao bar do Zezico, o Coral encerrara um popularíssimo cântico, cujos últimos versos eram um louvor ao Santíssimo Sacramento: “Louvemos a Deus para sempre. Amém”. Antes que a Lira iniciasse o dobrado “Cisne Branco”, o Anão, do interior do bar, pela fresta da porta semicerrada, para provocar o Lausico, gritou: - Ei, Colete Preto! No silêncio da contrição geral, mas reagindo ao atrevimento do insulto, cego de raiva e sem medir as conseqüências de suas palavras, o Lausico, no mesmo ritmo e tonalidade muito superior à da música que acabara de ser cantada, respondeu com todas as forças de seus pulmões: “Colete Preto é a p.q.p.” Constrangimento generalizado. O Portápio deixou escapulir das mãos a partitura e ao se abaixar para apanhá-la, atingiu a cabeça do Dozinho com a boca da tuba, atirando-o contra o Licínio, que teve desalinhados os poucos e estratégicos fios de cabelos que camuflavam sua repudiada calvície. Ao virar-se para observar o tumulto na banda, o Zé do Dino que custava a suportar uma dos quatro varais do andor, tropeçou numa pedra, arqueou os joelhos e quase a imagem de Nossa Senhora foi ao chão. O Lausico, impassível, mas avaliando a reação que suas palavras haviam causado, apertou os pratos contra o peito e baixinho segredou aos ouvidos do Alfredo Preto ao seu lado: - Um dia ainda enforco o desgraçado desse Anão! Só voltou a tocar na banda alguns anos depois. Assim mesmo somente em retretas no coreto e nos circos de tourada e cavalinho que visitavam a cidade. De procissões, foi sumariamente excluído! SAFADEZA À SOMBRA DO JACARÉ - Oia, Chico, eu te aconseio a num pescá mais na lagoa da Maria Bernada. Istrudia, quando eu passava lá na cabecera dela, um jacaré travessô na minha frente, tafuiô nas água e foi nadano lá pros lado das tabúa onde ocê vai fisgá as traíra. Este conselho foi dado pelo Zé Candinha ao Chico Preto, quando se encontraram uma tarde na casa do Raimundo Bigode, lá na Vargem do Paga-Bem. A lagoa tinha esse nome porque ficava a poucos metros da casa de Dª Maria Bernarda, nos terrenos do Alcides Cunha, e que era um reservatório de águas pluviais utilizado pelos animais na ocasião da seca, tendo-se em vista a falta de córregos ou rios na região. - Ocê tava é com a cara cheia de canjibrina e o que passô na sua frente deve ter sido um calango qui os seus oio aumentô de tamanho. Ocê num deve nem sabê o qui é um jacaré... - retrucou incrédulo o Chico. - De verdade, eu só tinha visto um nas gravura dos livro da iscola, mas sei que é um bicho muito brabo. Quando pega arguma coisa leva ela pru fundo e come tudo, num sobrano nada do abocanhado. O qui eu vi tinha uns dois metros de tamanho e uma boca de mais de quatro parmo, com os dente apareceno dos lado. Ignorando o conselho do Zé Candinha, dias depois o Chico Preto foi até a bananeira, arrancou algumas minhocas, pegou a vara e disse para a Virgília, sua mulher: - Eu vô lá na lagoa da Maria Bernada pescá umas traíra. Num vô demorá não pois já é mais de duas hora e até as quatro eu tô aqui pra jantá. - Cuidado com o jacaré, home... O Zé Candinha pode tá falano a verdade... - Qui nada, Virgila. Esse bicho eu pego é no tapa. Jacaré do Zé Candinha tá é arroiado dentro de uma garrafa de pinga, muié... Com água à altura dos joelhos, sem camisa, o Chico Preto, estático, segurava a vara com a mão direita e com a esquerda puxava umas baforadas no cachimbo para espantar os mosquitos. Cansado de tanto esperar e como não havia nem sinal das traíras, resolveu ir embora. Tirou o anzol da água, enrolou a linha na vara e quando se preparava para sair da lagoa, viu que em sua direção, à flor d'água, vinha uma saliência com duas bolas de cada lado, rebocando uma espécie de serra para madeira que terminava movendo-se morosamente de um para outro lado. - Valha-me, Nossa Senhora! É o jacaré do Zé Candinha! E sobrepondo a ação ao susto, aos pulos o Chico tentou ultrapassar os 20 metros que o separavam da margem da lagoa. O jacaré, mais rápido, alcançou-o e deu-lhe uma mordida no traseiro, pegando somente a sua calça. Devido à fragilidade do tecido, já bastante poído pelo uso, ela se rasgou e foi arrancada do corpo por um safanão violento do animal, embaraçando-se em sua cabeça e encobrindo-lhe a visão, fazendo com que ele desistisse da perseguição. O Chico Preto não podia regressar à sua casa completamente pelado. Teria que passar em frente à casa da Maria Bernarda e, claro, seria visto. Não podia atravessar pelo outro lado, pois aí teria que ultrapassar a montante e era lá que o jacaré poderia estar. Ali por perto não havia nenhuma moita em que pudesse se esconder, nem uma árvore para subir. Então teve uma idéia. Vira que a Sá Lia, mulher que não gozava de bom conceito na região em vista de sua liberalidade excessiva e que também morava às margens da lagoa, saíra com os filhos Cristóvão e Waldé, deixando a porta somente cerrada. Entrou na casa de dois cômodos e acomodou-se como pode debaixo da cama da mulher. Ali aguardaria o anoitecer quando regressaria sem riscos ao lar. A Virgília, mesmo se locomovendo com dificuldades, escorando-se em um bastão, mas preocupada com a demora do Chico, resolveu ir à sua procura. À Maria Bernarda perguntou se o tinha visto. - Vi quando ele chegou lá na lagoa. Num vi se vortô não. Deve tá pur lá ainda. Com sacrifício, a Virgília chegou ao local onde o Chico sempre pescava. Nada. Só a sua camisa junto a um cupim. Já cansada e um tanto desanimada e recordando a história do jacaré que o Zé Candinha disse ter visto, perguntou a si mesma: - Será que o jacaré cumeu o Chico? Ele nunca foi de demorá tanto e sumiu, dexano aqui só a camisa! Seja tudo pelo amor de Deus! Arregimentando as últimas forças, resolveu chegar até a casa da Sá Lia, com quem não se entendia bem desde o dia em que soube que o Chico estava se engraçando com ela. Nem cumprimentou a mulher e foi logo perguntando: - Ocê viu o Chico pescano ali perto das tabúa agora de tarde? - Vi sim, mas eu saí com os minino pra pegá uns graveto e quando vortemo ele num tava lá mais não. - O Chico sumiu e acho que o jacaré pegô ele! - Pegô nada! Deus é grande! Quando a Virgília preparava-se para ir embora, o Cristóvão, na inocência de seus cinco anos, muito assustado, chamou a mãe e perguntou-lhe: - Mãe! Que qui é qui o Chico Preto tá fazeno pelado lá dibaixo de sua cama? A Virgília bufou de raiva e invadiu a casa. Abaixou-se já com o bastão em posição e deu a primeira estocada no Chico, atingindo-lhe o nariz que começou a sangrar. - Sai daí, sô sem vergonha, qui eu vô te quebrá no pau! Ao sair, o Chico limpava o sangue com uma das mãos e com a outra tentava agarrar o porrete que a Virgília descia-lhe às costas sem dó nem piedade. - Eu posso ispricá, Virgila. Num é nada disso qui ocê tá pensano não! Sempre fui um sujeito dereito! Confusa com a situação, a Sá Lia tentava amenizar a situação: - Pára de batê no Chico, Virgila. Eu nem sabia qui ele tava aqui! - Sai pra lá, muié da vida! Quereno tomá o marido das otra, peste dos inferno! - e deu-lhe uma cacetada nas canelas! E, no trajeto até em casa, o Chico a cada explicação que teimava em repetir, levava uma bordoada nas costas. A separação do casal aconteceu três meses depois. A Virgília nem ninguém acreditou na versão do Chico Preto para o caso do jacaré! A bem da verdade, nem eu. Apenas relatei o que ele me contou. PILANTRAGENS JUNTO AO REGO DE SÁ JACINTA Separados pelo rego de Sá Jacinta - um curso de águas cristalinas que servia de fonte, lavanderia e banheira - mas unidos pelo sofrimento de uma vida rural cheia de dificuldades, viviam em pequenas glebas griladas na Vargem do Paga Bem, o Inhô, capitaneando uma família de oito filhos, além da sogra viúva, e o Mundico, com o mesmo número de filhos e o pai esclerosado. Plantação à meia de milho e feijão nas roças do Nenê Macaco além de uma faixa de arroz e uma horta às margens do córrego, até onde o bambuzal permitia, eram os principais meios de subsistência das famílias que dependiam essencialmente das condições climáticas para dimensionar o grau de dificuldades do período. O que amenizava um pouco a situação era a criação de galinhas que ambos mantinham e que fornecia pequeno suporte às despesas com a comercialização esporádica de alguns frangos e a utilização de ovos na complementação da deficiente dieta diária. Mas, naquele ano, além da seca que sacrificou a metade da colheita, a criação de galinhas do Inhô foi morta por uma peste que a reduziu somente a um galo e três franguinhas. - Nois tem qui dá um jeito, Violeta - lamentou uma noite o Inhô para sua esposa. - Jeito cumo, home? Nós num pode comprá otras galinha e nem isperá que as que sobrô passe a produzi. - Já tive pensano cumo nós vai arrumá... Se ocê ajudá nois vai tê ovo e dispois argum franguinho em pouco tempo... - É craro qui ajudo, Inhô... Os minino já num aguenta mais cumê só fejão e côve todo dia... É priciso ao menos uma farofa ou um ovo quente pra ajudá. Tão tudo ficano cada veis mais fraco... - Oia aqui. A peste de caroço que matou nossas galinha não deu lá casa do cumpade Mundico. Intonces o jeito é pegá argumas franga dele que já teje perto da pustura e juntá cum as nossa... - Mas isso é rôbo, home... E dispois quando as galinha dele sumi, ele vem direto aqui percurá elas... E nois cumo vai fazê... - Dexe cumigo, Violeta. Dispois de amanhã de noite tem reza na capela da Maria Bernada e sei qui todo mundo da casa do Mundico vai lá. Ocê tamém vai com os minino e fala qui eu tô meio perrengue e fiquei de cama in casa. Aporveito a oportunidade vô lá no galinhero dele e pego argumas franga pra aumentá a quantidade das nossa... - E o Truvão? Cumo ocê vai fazê? - Ele me conhece e num vai dá nem um latido. Vai dá tudo certo... No outro dia, aparece o Mundico na casa do Inhô: - Ocê num viu oito franguinha minha pur esses lado não, cumpade? Elas sumiu de onte pra hoje e já percurei pur tudo quanto é banda e nem as penas delas eu encontrei... - Gambá e raposa, cumpade... Já tive notícia qui eles agora tão agino culiado e quando ataca é um arraso... Pur falá nisso, cumpade, apareceu antonte aqui in casa aquela galinha que há uns seis mês tinha sumido... E oie, vortô cumpanhada de oito fraguinhas qui ela chocô e criô lá no mato... Tão presa lá no galinhero... Vem vê... - Oia cumpade, se eu não tivesse tanta cunfiança nocê e se elas não fosse do pescoço pelado eu falava inté qui era as minha... In todo caso se as franguinha aparecê pur aqui ocê me avisa... A Clarice, esposa do Mundico era quem ditava as regras da casa, dominando a todos com sua personalidade forte e explosiva. Sempre reclamava do desconforto em que vivia, obrigada que fora a se casar e acompanhar o marido para aquele fim de mundo. Depois de ouvir as explicações sobre as galinhas, não as aceitou e contestou na hora: - Então o Inhô vem aqui, rouba as nossas galinhas, depena o pescoço delas e ainda lhe convence que nasceram e foram criadas no mato, aparecendo depois de seis meses... Reage homem... Isso é até caso de polícia... - Nois num pode fazê isso não, Crarice... Ele é nosso cumpade e nosso mió amigo... Nois tem que guentá e isperá uns tempo pra desforra... Dois anos depois, a ocasião apareceu. A chuva foi generosa, proporcionando boa colheita, alguma fartura e dinheiro que deu até para o Inhô comprar uma porca com cinco leitõezinhos. - É agora, muié, que nois vai disforrá do caso das franguinha... Ocê lembra, né... - recordou o Mundico. - Eu nunca me esqueci daquilo e de sua frouxidão - retrucou a Clarice com a empáfia de seus conhecimentos de 4ª série primária. - Eu vô vortá da roça mais cedo amanhã e proveitá a ida da Violeta na Paropeba com os dois minino mais menó e quando os otro tivé na iscola, eu vô na casa dele pegá um leitão e compensá o prejuízo que nois teve... - Cê é burro mesmo, né Mundico... E onde ocê vai esconder o porco e depois criá-lo? - Nós colore ele e ocê que é danada de instruída convence o Inhô que aquele leitão não é o dele... - Deixe comigo, Mundico - finalizou triunfante a Clarice, após raciocinar alguns segundos. Dois dias depois aparece o Inhô à procura do porco: - Ocê pur acaso num viu meu leitão branquinho qui sumiu antonte lá de casa, cumpade Mundico... - Vi não, cumpade... Aí interrompe a Clarice com ar misterioso e voz autoritária: - Por falar em porco, eu até ia convidar você e a comadre Violeta para ver o leitãozinho que nós compramos na exposição lá em Curvelo. Vem cá na ceva, compadre e veja que gracinha... - Uai, cumade, porco de três cor, com essas lista branca, azul e vermeia travessano pru riba do lombo e cabano nos quarto... Nunca vi dessa raça não... Coisa isquisita, sá.... - Procê vê, compadre Inhô. É um cruzamento que os cientistas da França fizeram e os porcos de lá agora são todos assim, da cor da bandeira deles, retrucou academicamente a Clarice. E prevendo o descolorimento do animal no contato da água com a anilina com que ela o maquiara, concluiu: á - Que nem os franceses, o leitãozinho também detesta tomar banho. Como não usa perfume pra disfarçar, é preciso aplicar-lhe de três em três meses uma injeção de leite de colônia, senão ele não resiste e morre de tanto mau cheiro... - Quando ele fô pai, nois arreserva um fiotinho procê, cumpade, arrematou o Mundico... - Tá bão, cumpade. Inté mais. - Inté. LOBOS REAIS E SACOS AMBÍGUOS - Ocê aperparô diritinho a matutage e as ferramenta pra nois subi a serra, Quirubino? - Oia, Migué, tá tudo aí. Inxadão, picareta, dois facão e a labanca. As duas rapadura e a meia quarta de farinha tão dentro das capanga. Binga, fumo e paia macia, tão na argibera. Só farta as lamparina que vamo pegá imprestada do Sô Dico, lá no caminho. E assim os dois moradores preparavam-se para subir a Serra das Cruzinhas, à busca do tacho de ouro que a tradição dizia ter sido enterrado em uma de suas grutas pelo Capitão Manuel do Paga-Bem, rico bandeirante português que, à falta de herdeiros e pressentindo aproximar-se a morte, enterrara no local. - Se tudo corrê bem, nois vorta daqui a dois dia, viu Minervina. Num se priocupe não, pois o Migué disse que já foi lá na gruta e é um lugá sem pirigo. Só num disenterrô o tacho pruquê num tava aperparado pra ficá lá mais tempo. Põe a bença nos minino e fica cum Deus, despediu-se o Querubino ao se levantar de madrugada. - Deus vai ti acumpanhá e num vai dexá que nada de ruim aconteça procê e pro Migué, respondeu preocupada a Minervina. Subida íngreme, espinhos, cipós e de vez em quando uma cobra atravessando a rota. Até a tarde foi um sacrifício enorme para chegarem na entrada da gruta que ficava no fim de um estreito desfiladeiro margeado por enormes blocos de pedra e que dava passagem somente para uma pessoa de cada vez. Devido ao cansaço, resolveram acampar em um lugar mais plano e começar a escavação no dia seguinte. E aí começaram a divagar sobre a melhor maneira de como gastar a fortuna que supunham estar lá no fundo da gruta e da qual não tinham a menor noção do imenso valor, segundo os cálculos da crendice popular. - Oia, Quirubino, se nois achá o tacho de oro, eu vô comprá uma daquelas bota qui tem cara de boi desenhada nos lado e o cavalo pampa do Arcide pra mode disfilá com ele esquipando dispois da missa das dez dos dumingo, lá na Paropeba... - Pois eu quero é pegá o trem de ferro no Araçá e assisti o jubileu do Sinhô Bom Jesus lá na Congonha, cumo o Zé Gome faz todo ano. Vô ficá lá os treis dia, morando na mió pensão, de preferença in frente a istação, pra iscuitá mais de perto os apito apaxonado quando o maquinista puxa a cordinha lá da máquina, retrucou o Miguel deixando escapar um jato de farinha da careca boca cheia. Mentalizando outras coisas que revertessem a vida miserável que levavam, ambos adormeceram à luz fraca da lua minguante. - Acorda, Migué, o sol já nasceu e vamos tafuiá lá na gruta. - Só vô ali ditrás da moita e já vorto... - Cê que tá com o facão mais mió, pega a lamparina e vai na frente pra cortá os cipó e eu vô lá atrás carregano as ferramenta... - determinou o Querubino. - Cê num acha qui os capim aqui tá meio massado, não, Migué? Será onça que tá morano aqui? - Deve sê o vento incanado na entrada da gruta. - É, mas tô meio discunfiado. Pra vortá daqui na carrera é muito difici... E, cem metros à frente, o Miguel foi abrindo caminho na vegetação fechada e já escura da entrada da gruta. Quando já não podia divisar mais o Candinha, gritou: - Anda dipressa molenga, qui nois tem de cavá, pegá o tacho e vortá hoje ainda... Assustado com o grito, um lobo que dormia por ali acordou e aos saltos procurou se safar do esconderijo, correndo pelo desfiladeiro em direção à saída. - Oia o lobo, Quirubino - gritou o Miguel lá do fundo da gruta. O barulho acordou o outro lobo que também dormia logo abaixo e que, assustado, correu em direção ao companheiro, dando de cara com o Miguel. - Me vale, Nossa Sinhora! Largou o facão, apagou a lamparina, deu meia volta e começou a correr na frente da fera. Intercalados, eram o Querubino e o Miguel correndo dos animais e estes, apavorados, sendo acossados pelos dois na rota da fuga. Foi um alívio no fim do corredor, quando os exploradores, deixando as ferramentas e utilidades, despencaram morro abaixo e os lobos, aliviados da surpreendente invasão, tomaram o rumo contrário. Agora, juntamente com o tacho de ouro do Manuel Paga-Bem, repousam também no fundo da gruta da Serra das Cruzinhas todos os apetrechos da expedição malograda dos Indiana Jones da época... • Segundo os etimólogos, a palavra “saco” pode ser interpretada de várias maneiras, variando seus sentidos entre jocosos, bizarros, maldosos e também como sinônimo de recôncavo, cavidade funda, gruta, lapa e outros que identificam acidentes geográficos comuns no meio rural. Em Paraopeba esses locais são conhecidos segundo sua conformação, localização ou estado de conservação. Examinando as fichas de recadastramento de pequenos fazendeiros e sitiantes do município, em reunião no escritório da recém instalada ACAR, uma estagiária de agronomia perguntou ao Joaquim Caetano: - Então o senhor é o dono do Saco Sujo? Na ingenuidade da colocação dos termos da resposta, disse o fazendeiro: - Não sinhora. O Saco Sujo eu cidi pro meu cunhado Zé Vicente. O qui tenho agora é só um pedaço do Saco Cumprido pois a parte de baxo, do lado de lá do Rego Iscuro, eu passei pro meu fio prantá horta. - E tem dado resultado? - Tem nada, sá dona. Com a farta de chuva dos úrtimo ano, os tumate dele num disinvorve. Fica tudo mucho, inrugado e miudinho, pareceno que tá podre. O prijuízo só num é maió pruquê o qui perde nos tumate, ele ganha na muranga e no jiló. A moça ficou um tanto constrangida e, para tentar desviar o assunto e atualizar-se com as potencialidades da região, perguntou ao Arimatéia: - O senhor conhece algum lugar nas imediações da cidade que sirva também para a exploração do eco-turismo? Lembrando-se da antiga fazenda e hoje pousada do Rasgão e ignorando o duplo sentido de seus conceitos, respondeu prontamente o Arimatéia: - Eu num sei muito bem o qui é isso não. Mas aqui juntinho, na saída antiga pra Cordisburgo inzeste o Rasgão da Dona Cotinha. É um lugá muito bonito e lá nos seus fundo tem uma floresta muito fechada, qui nós chama de Matão, onde nasce uma água amarelada e meio sargada que iscorre inté um açude, logo in frente. Pra num inchê muito e vazá pru riba, Dona Cotinha abre as comporta da represa dele argumas veis pur dia, passano a água perto do Buracão do Zé Ramiro, saracotiano pela discida e derramano lá inbaxo, no rego do cumpade Remundo. A rigião tamém é muito boa pra lavora. O Mané da Chica gostava muito de prantá mandioca pur ali. Parô só pruquê a Dona Cotinha alugou o Rasgão prum fazendero lá de Curvelo, qui se apossô de tudo e ispulsô o Mané, dizeno que num quiria qui ninguém cavucasse mais na propiedade qui agora era só dele... A estagiária pediu transferência no mesmo dia. A ONÇA ERUDITA E O VEADOS ENRABADOS Não se podia afirmar que as narrativas das peripécias de caçadas de veado que o João Macaco fazia lá nos cerrados da região de Pompéu, eram a expressão da verdade. Na maioria das vezes, exagerava nos relatos, distorcendo os fatos e, em outras, o que era mais comum, vivenciava situações estranhas nas quais sempre se destacava como o personagem principal. Para não dizer que era um grande mentiroso, afirmamos que às vezes o João atropelava a verdade, inventando estórias inocentes que não prejudicavam nem ofendiam ninguém. E foi numa dessas caçadas, em companhia do Manacés, do Valdemar e do Antônio Padeiro que o João Macaco me relatou o que talvez tenha sido a maior e mais estranha aventura de sua vida. - Nós cheguemo lá na berada do Rio Paropeba, acampemo, jantemo, demo comida pros cachorro, disarriemo e sortemo os cavalo e esperemo o dia amanhicê pra cumeçá a caçada. Dispois do quebra-torto, cunfirimo as munição, sortemo a matia e ela esparramô no cerrado. Nada de viado. Vortemo lá pras duas hora e arresorvemo dá uma pescada no rio e tamém num tivemo sorte. No sigundo e tercero dia, a mesma coisa. Nem sinal dos catinguero. Quando nós se aperparava pra vim simbora, o Carrapicho se amarrô numa arve a 200 metros de onde nós tava. Oiava pra riba, latia e rosnava feito um doido. Fumo inté lá e vimo nas grimpa de uma maçaranduba a onça qui o cachorro levantô e que tinha subido na arve pra fugi dele. Era um pau muito arto e isgaiado e qui num dava jeito da gente acertá a bicha cá dibaixo. Os otro cachorro se juntô fazeno um baruião danado e a onça muito apavorada, pulava de gaio em gaio, percurano um meio pra descê e dá no pé. Dispois de muito tempo e veno qui a situação num mudificava, arresorvemo mudá os modo. Mandemo os cachorro calá a boca, iscondemo numa moita qui tinha dibaixo da arve e esperemo inté qui ela acarmasse e arresorvesse saí dadonde tava. Deu certo. A bicha cumeçô a descê. Mais o Antonho Padero, medroso de dá dó, saiu da moita pra mode corrê, mais num deu tempo. A onça pulô in riba dele, quereno mais fugi do qui agridi. Inquanto o Manacés e o Valdemar socorria o Antonho, qui caiu e tava todo ranhado, eu casquei atrás da pintada. Ela na frente, dispois eu e os cachorro na rabera. Pega daqui, pega dali, isgueia daqui, isgueia daculá, a onça divorteiava pra todo lado, pulava uma moita, eu dava a vorta tamém e cada vez chegava mais perto dela e longe dos cachorro. - Então sua velocidade era maior do que a da onça e a dos cães? - Isso mesmo. Essa caçada foi em 1935 e eu tava cum 20 ano e tinha muito forgo, saúde e disposição. Quando eu cheguei a 10 metro da onça, firmei bem a ispingarda no ombro, mirei e quando ia mandá chumbo, se me alembrei que tinha só um cartucho e num quis arriscá pois eu tava imbalado na carrera, o cerrado tava meio arto e a onça negaciava muito. Pudia sê qui eu errasse e num tinha cumo me defendê de uma reação da bicha. Quando cheguemo mais na frente foi qui cunteceu o qui eu num isperava. Incantuada na curva do rio, a onça parô, sentou in riba do rabo, ficou de mão posta e me pidiu quase chorano: - Pelo amô de Deus, sô João, num mata eu não. Sô uma onça viúva e tenho quatro fiotinho pra criá... - Então o animal falou? - No primeiro momento achei qui fosse um zumbido quarqué nos meus zuvido, mais ela cuntinuô: - Sô uma mãe sozinha. Uns home marvado matô meu marido e eu tô bandonada aqui no mundo... Pra piorá as coisa, tô cum istrepe no pé isquerdo qui tá me atrapaiano muito nas caçada... - Um poco mais inquilibrado do susto, perguntei: - Mais cumo ocê aprendeu a falá? Ocê veio de circo ou tá na iscola de argum papagaio? - Né nada disso não... Um dia garrei um home qui tava pescano ali no rio. Dirrubei ele e quando já ia fincá os dente na sua goela, sinti um calafrio da cabeça na ponta do rabo e pude intendê o que ele dizia: - Jesus seja lovado! Sô um profeta de Deus aqui na terra e se me sortá eu atendo treis pidido que ocê fizé, pur mais difici qui eles seja. Viva o Rei, aleluia... - Eu qui num tava muito interessada em cumê o home pois ele era muito veio, das carne dura, sujo e cum bafo danado de pinga, arresorvi sortá ele e, pra isprimentá as sua promessa, pidi qui eu falasse e intendesse cumo as pessoa, qui minha cor pritinha fosse mudada pra pintada iguar a da minha prima e que arrumasse um onço bunito e forte pra eu juntá mais ele e cunstituí famia. - Tá certo, aleluia! - disse o home. Só tem um porém. Ocê só vai falá quando tivé no maiô aperto pra sarvá a vida... Deus seja lovado, amém. - Sortei ele e hoje foi o premero dia qui falei. Os otro dois milagre tamém foi feito... - E os veados, João? - Peraí. Cheguei perto da bicha, pedi pra ela me mostrá onde tava o espinho e tirei ele. Ela me deu uma lambidinha de agradecimento, vortô na posição de onça, levantou a pata dereita e mostrô: - Eles tá tudo lá no chapadão, perto da Serra da Bocaina. Fugiu tudo daqui cum medo de mim. Eu num pude pirsigui eles pruquê os meus fiotes tá muito novo e ainda num sabe nadá pra travessá o rio. - Vortei pro acampamento e, sem dizê o cunticido, cunvinci os cumpanhero a caçá do otro lado do rio. Aí veio o pobrema: a nossa porva se moiô e nois fiquemo sem munição ninhuma. Mais cumo bom vaquero, resurvi laçá os viado e mandá os cumpanhero marrá cum cipó o chifre dum no rabo do otro, incarriano eles e formano uma filera de uns vintoito. Deu argum trabaio botá os bicho na istrada pra Paropeba, mais divagarinho e cum muita paciença, nois troxe eles tudo, são e sarvo... - João, eu sempre duvidei dos casos de suas caçadas, mas dessa vez você pegou pesado demais - disse-lhe para encerrar a conversa. - Vê se manera um pouco, homem... - Nunca minti na minha vida... O Zifirino Mudinho, meu cumpanhero de otras caçada, pode sê minha tistimunha e prová tudo qui falo. Prigunta pra ele... STRIP-TEASE NO FUNIL No local onde é hoje a Praça Expedicionário Fernandes, em Paraopeba, o circo de touradas continuava armado no período entre as festas do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora do Rosário, manifestações religiosas que atraiam um grande número de forasteiros à cidade. Uma arena de aproximadamente 50 metros de diâmetro demarcada por uma tosca cerca de réguas de madeira amarradas com cipó em mourões e que tinha, à guisa de tronco, um pequeno compartimento onde eram alojados os touros para o espetáculo. Uma cortina de tecido rústico circundava a arquibancada de tábuas, inviabilizando a visão dos que não tivessem condições financeiras para o ingresso. Nessas ocasiões era contratado o mais famoso toureiro da região: o Pica-Pau. Indivíduo esguio, atlético, ágil, Pica-Pau desfrutava de merecido prestígio na redondeza. Apresentava-se elegantemente trajado, roupas coloridas justas ao corpo, uma espécie de boina de bicos laterais como seus colegas espanhóis e uma capa de baeta vermelha, ornada com lantejoulas douradas. Não havia touro que ele temesse. Era capaz de executar os mais arriscados malabarismos à frente do animal. Ao final das apresentações, Pica-Pau dominava definitivamente a situação, fazendo a tradicional “pega de costas”, quando se ajoelhava diante do touro e, na arremetida violenta do animal à sua retaguarda, encaixava-se entre seus chifres, prendia-se neles com seus fortes braços, sendo arremetido várias vezes ao ar sem se desprender, até o domínio final do animal ensandecido. Era um verdadeiro delírio... Seu companheiro, o Elvino, era o oposto do Pica-Pau. Baixinho, meio obeso, cabeça coberta com uma peruca de meia feminina, era a covardia em pessoa.á O seu traje era composto de uma velha camisa do Bela Vista de Sete Lagoas, culote amarelo e polainas apoiadas nos pés descalços. A capa, um pedaço de flanela vermelha, matizada com manchas rosas e alguns remendos e rasgões que a hostilidade das situações sempre lhe impunham. Bastava a ameaça de arremetida do touro, para que ele buscasse proteção no alto da cerca, arrastando a capa sempre pisoteada pelo animal, provocando o riso e apupo do público. Porém, o Elvino era da terra. Filho do Sr. Antônio eá D. Maria e irmão do famoso Zé Candinha, aproveitava o intervalo entre as festas do Divino e do Rosário paraá visitar os pais e passar alguns dias com os amigos na Vargem do Paga-Bem. E foi numa sexta-feira que a mãe do Elvino lhe pediu: - Oia meu fio, amanhã eu, a Sá Carlota e a Maria Grussinha vamo lá na Vila comprá arguma coisa pras dispesa. O quirosene tá acabano e só tem meia rapadura e duas cuada de café. Mais tem um pobrema: a Zuina me contô que a Mimosa tá de bizerro novo, sorta no pastinho do Retiro do Dr. Guierme, lá no Funil. Aquela vaca quando tá parida de novo é um capeta. Bate inté na sombra. Cumo sei qui ocê é o mió torero da rigião, quero qui vai tamém pra mode protegê nóis. - Tá bão, mãe. Me chama cedo. Vô cum a capa, as polaina e o culote, pur que sem eles eu num sô nada... E lá no pastinho estava a Mimosa, saboreando o capim verde da campina e levantando a cabeça de vez em quando para observar a cria deitada sob uma pequena árvore, do outro lado da estrada. A 15 metros, uma cerca de achas de aroeira, construída para delimitar o espaço da manga de porcos do Dr. Guilherme,á impedia a passagem para uma estratégica fuga da fúria da vaca. - Dexa eu travessá premero. Se a Mimosa infezá e vié, eu toreio ela e a sinhora mais a Sá Carlota e a Maria Grussinha passa correno - determinou o Elvino. E a vaca viu o pessoal. Viu e não gostou. Enrijeceu as orelhas, deu uma abanada no pescoço, bufou irada, tomou posição e atacou. O Elvino, mais jovem e já acostumado a esse tipo de situação, correu em direção à cerca, com sua capa esvoaçante presa à mão direita, irritando ainda mais o animal. Não chegou a tempo. Foi alcançado e atingido no traseiro, de baixo para cima, por violenta cabeçada da Mimosa. No embalo, passou por cima da cerca e estatelou-se no poço de lama que os suínos usavam para chafurdar-se. Refazendo-se do susto que paralisara as três mulheres e procurando safar-se do local, a Maria Grossinha, com seus 68 anos de idade e 1,50 metros de altura, para ter maior mobilidade, levantou a saia até a altura dos joelhos e, sem noção de direção, correu justamente para onde estava o bezerro. A vaca voltou ainda mais agressiva. Abaixou a cabeça, alcançou a anciã pela barra da saia, rompeu com um safanão o cordão que a prendia à cintura e arremessou-a a dois metros de distância, sobre uma viçosa moita de urtiga que existia à margem da estrada. Como não tinha o hábito de usar roupas íntimas,á a reação das folhas da erva com a pele nua e sensível do local foi imediato e avassalador, irritando violentamente a região e fazendo a Maria Grossinha desfalecer numa posição bastante inconveniente. Como um troféu, Mimosa balançava as vestes estraçalhadas da mulher em seus chifres, bufando e dificultando o socorro à vítima. Atraído pelos gritos, o Geraldo do Ilídio, encarregado do Retiro, foi ao local, tocou a Mimosa para o curral e levou um cobertor para cobrir as partes desnudas da Maria Grossinha. Com uma corda, içou o Elvino por sobre a cerca e levou todos para sua casa, determinando à sua mulher, Vicentina, passar álcool e talco nas partes da velha atingidas pela urtiga. Água com açúcar foi o tranqüilizante ministrado para amenizar os efeitos do susto da interrompida e catastrófica viagem. - Ocê cumo torero é pió qui galo capão. Num arresorve nada - censurou a Maria Candinha ao cabisbaixo e enlameado Elvino que foi desmoralizado, mais uma vez, e agora pela própria mãe... 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